Aurélio não desiste de moralizar judô

O judoca Aurélio Miguel foi quem comandou em sua casa, na Vila Sônia, hoje pela manhã, uma "festa" pelo fim da era Mamede na Confederação Brasileira de Judô (CBJ). Estourou até champanhe ao lado de familiares, amigos, o técnico Luiz Shinohara e os atletas Carlos Honorato (medalha de prata na Olimpíada de Sydney, em 2000), Rogério Sampaio (ouro em Barcelona, em 1992) e Daniele Zangrando. O motivo da comemoração estava quantificado nas duas grandes caixas de plástico, com documentos que apontam alguns dos desmandos do ex-presidente Joaquim Mamede Júnior e seu pai, durante as duas décadas no controle da CBJ. Aurélio garantiu que as caixas eram uma pequena amostra do arquivo pessoal de histórias que espera ver enterradas. "Que o Mamede fique com Deus e deixe o judô em paz. Espero que agora a gente respire outros ares", comentou Aurélio, campeão olímpico em Seul, em 1988, e bronze em Atlanta, em 1996. O judoca, no entanto, observa que é preciso continuar com a luta pela moralização do esporte. "Vamos dar um voto de confiança à Paulo Wanderley (novo presidente da CBJ) mas a luta continua. Os novatos precisam se conscientizar que essa briga é de todos." Na mesa da sala, enquanto era servido o café da manhã, os judocas contavam histórias das diversas brigas com a família Mamede. "Ficou mais do que provado que ele vivia da CBJ. Foram anos de desrespeito, incompetência e abuso de poder", resumiu Aurélio. Lembraram o quanto o Centro de Treinamento, de Santa Cruz, foi odiado pelos atletas. "Os colchões eram tão finos que dava para sentir o estrado. Mas, o pior era ter de fazer faxina no banheiro", contou Daniele. "Quando só tinha meninas na concentração, até meu pai ficava preocupado por causa da vizinhança, não muito simpática." Em uma carta da CBJ, guardada no arquivo de Aurélio, Mamede Júnior pedia para os insatisfeitos ficarem hospedados no Copacabana Palace e contratarem gueixas para levá-los à praia. Rogério Sampaio, que ao lado de Daniele saiu de Santos às 6h30 para ir à festa, espera que agora o ídolo seja reconhecido. "É preciso valorizá-los e também resgatar a credibilidade. Só assim teremos mais investimentos." Também esse é o desejo de Carlos Honorato, que apesar da medalha de prata conquistada em Sydney, teve problemas financeiros para competir na Europa no início do ano. "Precisava ter ido para me preparar para a seletiva, em maio, e para o Mundial, na Alemanha, em julho." Honorato ganha R$ 1.500 por mês da prefeitura de São Caetano e do videoquê Raf Eletronics.

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