''Aves migratórias''

Algumas espécies de patos e gansos são aves migratórias. Todo ano, para fugir do inverno rigoroso de seu habitat, elas empreendem longas jornadas para passar algumas semanas em local mais quente e seguro. No mundo do futebol, saber o momento certo de fazer a migração é igualmente fundamental. Um jogador que decidir partir para a Europa antes da hora pode pagar um preço tão alto quanto o pato que voa de um lugar quente para outro congelado. No mundo da bola, também temos patos e gansos. Na verdade, temos um Pato e um Ganso. E ambos jogam o fino da bola e vestem a camisa da seleção brasileira.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2011 | 00h00

O nosso Pato migrou em direção ao Eldorado europeu na hora certa. (breve comentário: no passado, europeus vinham para a América em busca do Eldorado, cidade lendária cujas construções seriam todas de ouro maciço. No futebol de hoje, a mão se inverteu - e craques partem daqui para a Europa, em busca do ouro). Quando se transferiu para o poderoso Milan, em 2007, o atacante nascido em Pato Branco-PR, apesar de garoto, já tinha um currículo respeitável. Em 2006, com apenas 17 anos, ele foi campeão mundial interclubes pelo Internacional. E, no ano seguinte, conquistou a Recopa Sul-Americana pelo clube gaúcho. A torcida colorada sente sua falta até hoje, mas continua grata a Alexandre Pato por tudo o que fez por ela.

Pato foi embora sem reclamar dos dirigentes, sem receber vaias da torcida e, muito importante, deixando cheios os cofres da instituição. Com o dinheiro de sua venda, o Inter manteve-se forte e pôde conquistar, no ano passado, mais uma Libertadores. O atleta, por sua vez, tornou-se ídolo na Itália. No último domingo, foi simplesmente o grande herói do "Derby della Madonnina", como é conhecido Internazionale x Milan, o clássico de Milão. Pato voou do Brasil na hora certa - e ainda voará muito mais alto, como um dos grandes atacantes do futebol mundial.

Enquanto o Pato segue cantando alegremente, como na canção que João Gilberto eternizou, Ganso, seu colega de seleção, ensaia um voo em direção aos milhões de euros do futebol mais caro do planeta. Aos 21 anos, ele é mais velho do que Pato, ao transferir-se para a Europa. Mas, em minha opinião, o craque santista está querendo bater as asas antes da hora. Ninguém discute o talento desse meia-armador absolutamente clássico, como há muitos e muitos anos não se via. Em poucos anos, Ganso poderá ganhar o prêmio de maior jogador do mundo - façanha que mesmo para o talentoso Pato será difícil de ser alcançada. O jovem craque de Ananindeua-PA conquistou dois títulos pelo Santos: um Paulistão e uma Copa do Brasil. Só que não dá para comparar essas conquistas com as que Pato ajudou a colocar na galeria de troféus do Inter.

Paulo Henrique Ganso tem todo o direito de sonhar com um contrato de sonho - em remuneração e em condições de trabalho - no futebol europeu. Mas sair depois de uma longa contusão, sem uma sequência de bons jogos e sem ao menos tentar dar ao Santos uma esperada Libertadores, que possibilitaria o sonho do terceiro título mundial do Peixe, seria um erro de avaliação. Ganso deveria jogar pelo menos mais esta temporada pelo alvinegro praiano. Sem reclamar. Sem entrar em atrito com os dirigentes. Sem forçar sua saída. E, principalmente, sem brigar com a torcida. Aí sim, depois de se firmar novamente como o maior craque em atividade no país, ele deveria escolher com muito cuidado um time de ponta do futebol do Velho Continente. Vale lembrar que, quando falo em time de ponta, estou me referindo a apenas oito clubes: três na Inglaterra, três na Itália e dois na Espanha. O amigo leitor sabe exatamente quem são eles.

Se não ouvir o conselho de Robinho - que, com mais palavras, espelhei aqui -, nosso Ganso poderá pousar na praia errada, na temporada errada e, assim, acabar frustrando a si mesmo e aos que se encantam com seu futebol. Paciência, Ganso. Você ainda vai voar muito alto, mais alto do que todos os craques de sua geração. Se souber esperar.

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