''Ayrton tocava a alma dos fãs de automobilismo''

Os dois conviveram de perto por dois anos apenas, 1988 e 1989, como companheiros na McLaren. Mas fizeram história. Ayrton Senna venceu o primeiro campeonato e Alain Prost, o segundo. Lutaram pesado, dentro e fora das pistas. Começaram como colegas de profissão, se separam sem se falar, trocando acusações duras, e terminaram amigos. Mas, essencialmente, respeitavam-se mutuamente. Prost fez questão de falar do piloto que mais marcou sua brilhante carreira de quatro títulos mundiais.

Livio Oricchio, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

O que primeiro lhe vem à mente quando se lembra de Ayrton Senna?

Tivemos grandes momentos juntos. E instantes de tensão também. O interessante é que as nossas diferenças estão cada vez mais distantes para mim. Vi na reunião dos pilotos campeões, em Bahrein, domingo, que mais importante do que títulos e discussões é simplesmente poder estar lá. E nós tivemos essa sorte. Senti falta de Ayrton, como tenho certeza de que ele sentiria a minha.

Poderia citar um momento inesquecível dessa relação e outro em que o deixou chateado?

O campeonato de 1988 acabou no Japão, Ayrton foi campeão e fomos para a Austrália. Na classificação, lutamos volta a volta pela pole position. Quando acabou o treino, nos reunimos e começamos a trocar informações sobre o que fazíamos para vencer o outro. Rimos muito. Ele ficou com a pole por milésimos. Já um instante que me incomodou, em princípio, foi o fato de ele me puxar para o seu degrau no pódio, na minha última corrida na F-1, em 1993, na Austrália. Eu tentei fazer o mesmo na corrida anterior, no Japão, mas ele não aceitou. Eu fui. A partir daí passou a me tratar como nunca, nos tornamos amigos. Passamos a nos falar regularmente desde então.

Em algum momento Ayrton lhe disse o que faria no futuro, depois de deixar a F-1?

Ayrton era bastante reservado. Mas sempre me sinalizava sentir falta da família e do Brasil. Acredito que, assim que parasse de correr, voltaria imediatamente para o Brasil para ficar ao lado da família e cuidar dos seus negócios. Não viveria na Europa. Não o vejo fazendo outra coisa na F-1 a não ser pilotar. Não seria chefe de equipe ou teria time próprio.

Acredita que ele apoiaria se o seu filho desejasse ser piloto?

Sim. Estaria aqui, agora também, com o sobrinho, Bruno. Como disse, Ayrton era muito ligado à família. Já eu sofro muito com o meu filho como piloto. Tenho medo de ele sofrer um acidente. Começou tarde na profissão (Nicolas Prost, 28 anos, foi campeão da F-3000 Europeia em 2008 e esteve cotado, este ano, para ser piloto reserva da Renault).

Você diz que sua visão da relação de vocês mudou. O que Ayrton Senna representa, então, para a F-1?

Alguém especial. Um grande talento natural, amava o que fazia, assumia altos riscos, não tinha limite, e as pessoas amam isso. Um verdadeiro campeão. Nas pistas e no coração das pessoas. Ayrton tocava a alma dos fãs da F-1.

A opinião pública brasileira ainda o via com reservas, em 1994, por causa dos conflitos com Ayrton Senna na época de McLaren, principalmente. Mesmo assim você viajou ao Brasil e acompanhou o funeral de perto.

Eu não me sentiria bem comigo mesmo a vida toda se não fosse. Nós estávamos próximos de novo, mas poucos sabiam. Era a maneira que tinha de fazer a nossa história mais bonita, mais humana. Tivemos problemas, mas, depois que deixei a F-1, como disse, tudo mudou, nosso contato era regular. Eu me sinto confortável comigo, hoje, por ter ido ao Brasil.

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