Marcio Jose Sanchez / AP
Marcio Jose Sanchez / AP

'Azarões' no começo da temporada, quarterbacks Burrow e Stafford duelam no Super Bowl

Grande final da NFL entre Cincinnati Bengals e Los Angeles Rams, que acontece no domingo, terá em campo dois jogadores nos quais ninguém apostava e responderam em campo

Paulo Mancha, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2022 | 20h00

Maior evento esportivo dos Estados Unidos, o Super Bowl acontece no domingo, em Los Angeles, e capta as atenções do país a ponto de colecionar recordes. Das dez maiores audiências da história da televisão norte-americana, nove foram Super Bowls. Não é de estranhar que os principais jogadores de cada time se tornem instantaneamente celebridades. Este ano, os holofotes vão para duas estrelas improváveis: Joe Burrow e Matthew Stafford, quarterbacks de Cincinnati Bengals e Los Angeles Rams, respectivamente. 

Burrow e Stafford resolveram contrariar uma tendência. Em apenas duas das últimas dez edições do Super Bowl não havia em campo nenhum quarterback consagrado, daqueles com currículo abarrotado de façanhas. Figuras como Tom Brady e Peyton Manning, que deixaram o público mal-acostumado. Desta vez, é diferente. Mas isso não significa que faltará qualidade no gramado do SoFi Stadium. Pelo contrário, os quarterbacks azarões, que ninguém esperava ver na grande final, mostraram nos plaoyffs da NFL que os jovens da nova geração, como Burrow, e os veteranos que pareciam fadados ao esquecimento, como Stafford, podem surpreender e empolgar os fãs do esporte.

Doze anos de azar 

Quando foi recrutado pelo time do Detroit Lions no draft de 2009, o jovem Matthew Stafford, nascido em Tampa, na Flórida, vinha de uma promissora carreira no futebol americano universitário, jogando pela tradicional Universidade da Georgia. Chegou à gelada Detroit com a ingrata tarefa de acabar com a "Maldição de Bobby Layne", uma das passagens mais curiosas do folclore do esporte nos Estados Unidos.

Segundo a lenda, o quarterback Bobby Layne, principal responsável por três títulos dos Lions na década de 1950, teria proferido uma praga contra a equipe quando foi dispensado, após fraturar a perna em 1957. "Os Lions vão ficar 50 anos sem ganhar um campeonato", disse o atleta ressentido com o clube de Detroit.

Os tais 50 anos acabaram exatamente quando Matthew Stafford chegou aos Lions. Mas as vitórias não vieram. Mesmo jogando bem e sendo reconhecido como um quarterback acima da média, ele amargou doze anos de frustrações, atuando com companheiros de time que, com raras exceções, nunca faziam jus ao seu talento.

No começo de 2021, Stafford jogou a toalha e decidiu deixar Detroit e suas maldições para trás. Os Rams, de Los Angeles, apostaram no veterano e o levaram para a Califórnia, sob os olhares desconfiados da mídia e dos torcedores. Contra todas as expectativas, o quarterback de 33 anos renasceu e fez uma temporada digna de Hollywood, com 41 passes para touchdown - igualando a melhor marca de sua carreira, conseguida em 2011. Os Rams dominaram a sua divisão e chegaram afiados aos playoffs.

Mais que o desempenho nas estatísticas, Stafford brindou a equipe com uma personalidade cativante, capaz de inflamar os colegas de vestiário. “Se você não torce por esse cara, tem algo errado com você”, disse o técnico do time Sean MacVay na entrevista coletiva após a partida contra o San Francisco 49ers, domingo passado.

Na fase final do campeonato, foram três vitórias épicas do Los Angeles Rams contra adversários fortíssimos - um deles, o Tampa Bay Buccaneers, de Tom Brady, considerado o melhor quarterback de todos os tempos. Durante a comemoração pela classificação para o Super Bowl, Matthew Stafford declarou à Fox Sports: “Não dá para escrever uma história melhor que essa”, referindo-se à sua saga e à da equipe.

No domingo, dia 13, ele terá a chance de protagonizar o grand finale e subir nas telas de TVs do mundo todo os créditos de uma das maiores voltas por cima da história da NFL. Com ou sem maldições no roteiro.

Dores do crescimento

Rompimento dos ligamentos anterior cruzado e colateral medial, com danos severos ao menisco e ao ligamento cruzado posterior. Se esse diagnóstico médico é capaz de apavorar um cidadão comum, ele soa como sentença de morte para um atleta.

Essa foi muito provavelmente a sensação do quarterback Joe Burrow, do Cincinnati Bengals, ao ouvir as palavras do médico no dia 22 de novembro de 2020, após um lance de azar em uma partida contra o Washington Football Team. O garoto de apenas 23 anos, no entanto, nunca deixou transparecer qualquer medo ou pessimismo. No mesmo dia postou no Twitter: “Vocês não vão se livrar de mim. Até o ano que vem!”

A promessa foi cumprida e, após uma recuperação sofrida, mas bem-sucedida, o  garoto prodígio do estado de Iowa, que fez sua fama jogando pela Louisiana State University, estava pronto para atuar na abertura da temporada 2021/22 da NFL.

Mais que recuperado, vinha obcecado por tirar o Cincinnati Bengals da condição de “saco de pancadas” da NFL. Declarou ao site do time, em 11 de agosto do ano passado: “Não estamos aqui para vitórias morais. Viemos pra vencer a divisão”. A afirmação pareceu bravata para 99% dos que acompanham a liga. Afinal, os Bengals vinham de cinco temporadas seguidas nos confins da tabela de classificação da AFC Norte.

Mas, pouco a pouco, o elenco comandado por ele foi construindo sua liderança. Como profetizado, a equipe terminou o campeonato em primeiro na divisão, classificada para os playoffs, algo que não acontecia desde 2015. Burrow liderou as estatísticas de passes completos, com 70% de lançamentos bem-sucedidos - à frente inclusive, de estrelas como Tom Brady e Aaron Rodgers. E, nos playoffs, despachou para casa adversários muito mais cotados para ir ao Super Bowl, como o Tennessee Titans e o ultrafavorito Kansas City Chiefs.

Joe Burrow foi laureado na semana passada com o “Comeback Player of the Year”, prêmio dado todos os anos ao jogador com a melhor história de superação na liga. É mais um troféu para sua carreira. No futebol americano universitário, ele colecionou dezenas, inclusive o Troféu Heisman, maior condecoração do futebol americano amador, conferido anualmente ao melhor atleta do college football. A julgar pela frieza, talento e foco do mais novo ídolo do estado de Ohio, a prateleira pode ficar pequena depois do dia 13 de fevereiro.

 

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