Azul para rir e para chorar

A Itália que se despediu foi a negação de uma escola de respeito e sucesso

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2010 | 00h00

Quatro anos atrás, pela segunda vez na carreira, eu via in loco a Itália ganhar a Copa. Em 1982, acompanhei a trajetória da Azzurra do começo ao fim, do descrédito inicial (três empates seguidos) à vitória contra o Brasil e à consagração no Santiago Bernabéu. Na Alemanha, em 2006, assisti à dramática decisão com a França e, em nenhum momento, duvidei do sucesso de um time que ainda tinha Totti e Del Piero.

A Itália que se despediu ontem da África do Sul foi a negação de uma escola controvertida, mas historicamente de respeito e sucesso. O grupo que Marcello Lippi, o mago da campanha anterior, trouxe para cá foi um arremedo de seleção. Jogadores experientes viraram o fio ou chegaram aquém de suas melhores condições. Buffon, Cannavaro, Zambrotta, Camoranesi, Di Natale, Gattuso são alguns dos que furaram a barreira dos 30, mas renderam pouco. A banda jovem, com Criscito, Marchisio, Pazzini, não foi nada entusiasmante e se mostrou geração fraca.

Os tetracampeões do mundo sentiram falta de alguém para ser o maestro, para reger o time, como já foram Antognoni, Baggio, Totti. A missão desta vez recaiu sobre Pirlo, longe de ser extraordinário e ainda se ressentiu de contusão. Lippi esnobou Totti, que deixou a Azzurra após a aventura na Alemanha, mas se dispôs a voltar, caso fosse necessário. E era. Muito.

Triste ver saída de cena de um gigante, mas foi a própria Itália quem enveredou por esse caminho. Escolheu a opção pelo fiasco, quando Lippi também deixou o comando e foi substituído por Donadoni. Experiência fracassada e que terminou após participação discreta na Eurocopa de 2008. Lippi retomou o posto, confiou em algumas estrelas que não têm o brilho de antes. A queda foi inevitável.

Azul que brilha, agora, é o do Japão. A passagem para as oitavas se transformou na grande surpresa da Copa. Os japoneses não são brilhantes, mas provaram que valeu a pena ter organizado um Mundial. O trabalho feito para 2002 plantou bases no país, deu fruto, cresceu com Zico e desemboca na promoção. O que vier a partir de agora é lucro.

Qual rumo? O desafio de hoje da seleção é Portugal. Ficar em segundo lugar na chave pode não ser mau negócio para Dunga e seus jogadores. Eventualmente, vão esquivar-se da Espanha. Mas, do jeito que as coisas andam, o caminho do Brasil rumo à final está mais livre. Por méritos seus e por fragilidade dos rivais.

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