Badalação, oba-oba, mas e aí?

Até que ponto vale a pena repatriar jogadores mais velhos e famosos mundialmente? Essa reflexão, que remete à metade da década de 80, quando o São Paulo contratou Paulo Roberto Falcão, o então Rei de Roma, e o viu perder a majestade no Morumbi e amargar o banco do esforçado Márcio Araújo, ganhou força agora, especialmente nos últimos anos, período no qual o Brasil se tornou líder mundial em repatriamento de jogadores de futebol. Talvez meu lado ranzinza esteja mais evidente no momento e me faça crer que a maioria dos casos notórios e recentes de repatriamento não foi bem-sucedida.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

O Palmeiras tentou uma cartada com Vagner Love. E o que conseguiu? Nada! Aliás, pior do que isso, viu uma relação de admiração da torcida com um ídolo ser transformada em conflito e litígio, que chegou até a agressão física. No Fluminense despejaram um caminhão de dinheiro para contratar Deco e Fred e quem carregou o time nas costas na conquista do título brasileiro do ano passado foi o argentino e "santo de casa" Conca.

Ronaldinho Gaúcho protagonizou uma das disputas mais estapafúrdias entre clubes brasileiros pela contratação de um atleta. E terminou no Flamengo, que, com toda razão, comemorou o feito, que lhe daria visibilidade e, consequentemente, receitas inéditas. Atualmente, porém, o que se vê na Gávea é uma camisa sem patrocínio principal, um "craque/melhor jogador do mundo" com rendimento técnico absolutamente mediano e que passou a ser coadjuvante de Thiago Neves.

Já sei, vão lembrar de Roberto Carlos no Corinthians do ano passado. O veterano lateral-esquerdo foi o atleta que mais atuou pela equipe e terminou a temporada eleito como o melhor da posição na disputa do Nacional. Ok, pessoalmente foi um bom ano para o jogador, mas não esqueçam que a missão principal dele era liderar, ao lado de Ronaldo, o Corinthians na campanha do inédito título da Libertadores. Não é necessário lembrar de um tal de Tolima e do clima pouco amistoso que marcou a saída de Roberto Carlos do Parque São Jorge. Ronaldo deu certo. O Fenômeno liderou o time na conquista da Copa do Brasil e até hoje trabalha como uma espécie de dirigente alvinegro. Mas está mais para a exceção que justifica a regra.

E para quem achava que este colunista escreveria tudo isso para terminar debruçado sobre o caso de Adriano, lamento a desilusão. Mas nas duas oportunidades em que foi repatriado (por São Paulo e Flamengo), Adriano foi artilheiro. Seu problema não foi rendimento em campo, mas sim as polêmicas e confusões fora dele, que, de tão grandes, acabam por comprometer seu custo-benefício. E não entrarei no tema da lesão no tendão de aquiles que o afasta dos campos por volta de cinco meses porque, pelo menos até aqui, entendo que se trata de uma fatalidade.

Em resumo, meus caros, enquanto vemos uma exibição de criatividade dos dirigentes brasileiros na elaboração de ginásticas financeiras para repatriar atletas veteranos, notamos que os grandes destaques dentro de campo são mesmo os garotos Lucas, Neymar, Ganso, Bernardo, Wallyson, etc.

Essa constatação prova que os veteranos não devem ser contratados? De maneira alguma. A experiência, a técnica e a visibilidade desses atletas são importantíssimas para o marketing, para o torcedor (quem não gosta de ver um grande ídolo mundial com a camisa de seu time?) e até para o processo de lapidação desses novos talentos. A questão é equilibrar o oba-oba dos famosos sem preterir a formação. E quem conseguiu, hoje desfruta do resultado. O melhor time do mundo, o Barcelona, foi forjado na base.

Outro detalhe: o nome e a fama garantem apenas a badalação inicial. Se no campo o atleta não convencer, o brilho se apaga, a empolgação vira frustração e os aplausos se transformam em vaias. Adriano e Luis Fabiano - e tantos outros que ainda podem chegar - têm condições e oportunidades de provar que estas impressões estão equivocadas. Tomara que consigam.

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