Badminton depende de 'vaquinha' para ir a Mundial Pré-Olímpico

Atletas bancam suas próprias viagens para os torneios oficiais

DEMÉTRIO VECCHIOLI, Estadão Conteúdo

23 de junho de 2015 | 08h06

Campanhas online de arrecadação de fundos para que atletas participem de competições já se tornaram recorrentes. O badminton, entretanto, chegou a um novo patamar. A um ano de levar um jogador aos Jogos Olímpicos pela primeira vez, a Confederação Brasileira de Badminton (CBBd) não tem condições de pagar a ida de nenhum brasileiro ao Mundial de Jacarta (Indonésia), evento mais importante do ciclo olímpico. Quem quiser participar terá de pagar sua viagem, estadia, e todos os demais custos relacionados.

"A passagem já está paga e para o Mundial eu vou de qualquer jeito. Mas, para os outros torneios que preciso ir, o valor começa a ficar muito alto para eu poder bancar sozinho. E conseguir patrocínio ultimamente tem sido bem difícil. O crowdfunding (arrecadação pela internet com quem quer ajudar) foi a melhor ideia que tive", conta Tjong, número 97 do ranking mundial, que vai pela segunda vez aos Jogos Pan-Americanos.

Ele quer usar os R$ 10 mil que pretende arrecadar com o ''financiamento coletivo'' para ajudar a pagar a ida a sete torneios até o fim do ano e recuperar parte dos R$ 5 mil que gastou só com a passagem até a Indonésia. No ano passado, Alex torrou R$ 9 mil para ir a duas etapas do Circuito Mundial. Dinheiro que saiu da sua pouca renda: o soldo de sargento da Força Aérea (cerca de R$ 3.000 por mês) e a Bolsa Talento Esportivo, oferecida pelo Governo do Estado de São Paulo, de pouco menos de R$ 2.500. Ele não tem Bolsa Atleta.

OPÇÕES

A CBBd alega que até teria recursos para levar os sete atletas classificados ao Mundial, em agosto, mas optou por usar a mesma verba para bancar a participação em dois eventos menores, na Guatemala e no México, mas que oferecem mais oportunidade aos brasileiros de pontuarem no ranking mundial. "A gente tem de fazer o custo-benefício. A CBBd está disponibilizando dinheiro para competições que vão gerar mais pontos. A gente tem um indicador de quanto vai custar cada ponto. O Mundial é outro nível, temos de ser extremamente racionais. Para o atleta, é sensacional disputar o Mundial, mas não ganhamos pontos", argumenta José Roberto Santini, diretor técnico da entidade.

De acordo com ele, a ida ao Mundial custaria até R$ 130 mil à CBBd, que depende exclusivamente dos R$ 2 milhões que recebe da Lei Piva. "Não tivemos aporte do Ministério do Esporte, não temos patrocínio. Estamos fazendo planejamento de equipe olímpica com os mesmos recursos que nossos atletas eram número 500 do ranking. Hoje, classificaríamos dois atletas para a Olimpíada sem precisar de convite."

A CBBd passou por intervenção jurídica em 2011 e só conseguiu certidão negativa de débito em meados do ano passado. Até então, não poderia firmar convênios com o governo. A entidade alega que, depois, chegou a enviar projetos ao Ministério do Esporte, que foram recusados. "Essa coisa de que a meta é ser Top 10 (do quadro de medalhas da Olimpíada do Rio) está fazendo com que os recursos sejam destinados para quem tem chance de medalha. A gente não tem", reclama Santini. O Ministério do Esporte diz que não foi procurado pela CBBd para apoiar a participação de atletas no Circuito Mundial ou em outros torneios.

VAGA OLÍMPICA

Além de Alex, Daniel Paiola, número 66 do ranking, também está inscrito no Mundial. O Brasil tem direito a dois convites nos Jogos do Rio (um na chave masculina de simples e outro na feminina), mas pretende não precisar usufruí-los, classificando ambos pelos critérios universais. O jovem Ygor Coelho subiu ao 103.º lugar do ranking e entrou na briga depois de viajar à Europa por conta própria para competir na Polônia, na Finlândia e na França.

Nas duplas, vai o melhor time das Américas em cada uma das três disciplinas: masculina, feminina e mista. Únicas brasileiras com chances, as irmãs Lohaynny e Luana Vicente, têm 30.203 pontos, contra 37.341 de Eva Lee/Paula Obanana (EUA). As Vicente foram a 10 torneios nas últimas 52 semanas e por isso não têm descartes no ranking. As norte-americanas disputaram 18 competições, computando os 10 melhores resultados.

Até maio de 2016, o planejamento da CBBd é que as atletas participem de no máximo 15 eventos. "Não podemos chegar nunca em 20. Não temos dinheiro", admite Santini. O Brasil nunca disputou uma Olimpíada no badminton. Também nunca venceu uma partida de Mundial. No Pan, ganhou um bronze em 2007 e outro em 2011. A meta para Toronto é subiu ao pódio em todas as cinco disputas.

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