Baixinho indigesto

Futebol sem polêmica é igual arroz sem sal, bife sem gordura, feijoada light, refrigerante zero, café com adoçante e outras bossas inventadas só para tirarem o prazer de quem as degusta. A gente até engole tudo isso; mas é tão sem graça...

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h01

Romário, com o estilo desbocado de sempre, durante a semana botou pimenta na discussão em torno da seleção, ou mais especificamente, dos métodos de trabalho de Mano Menezes. O ex-centroavante, goleador e posudo como poucos, desceu a ripa no treinador do Brasil, a ponto de abusar do palavreado. Disse que o homem responsável pela missão de montar um time que represente o país em 2014 é um "imbecil" e "idiota".

O baixinho pegou pesado, embora fiel ao estilo que cultivou durante duas décadas nos gramados. Se antes soltava cobras e lagartos, mesmo com o risco de tomar bordoadas de zagueiros ou amargar penas dos tribunais esportivos, agora na condição de deputado, e com imunidade parlamentar, ninguém o segura.

Romário andava irritado com Mano desde os Jogos de Londres. Como comentarista bissexto, em canal de tevê, não economizou críticas ao técnico, por considerá-lo fraco e sem condições de conduzir o time ao sexto título mundial. No único esboço de resposta, Mano disse tratar-se de atitude oportunista do ex-boleiro agora político. Ouviu de volta os adjetivos rudes e, de quebra, a afirmação de que faz convocações "dúbias".

Era a deixa para o circo pegar fogo. Imaginou-se que Mano voltaria à carga, com brios feridos e honra atingida pela língua ferina do tetracampeão. Em vez disso, desconversou olimpicamente, quando lhe perguntaram o que pensava a respeito dos vitupérios. Deu uma esfriada no bafafá e aparentemente manteve postura altiva em relação ao craque.

Mano optou pela fleuma britânica em contraposição ao barraco armado pelo mais famoso filho da Vila da Penha. Cada um escolheu o caminho a seguir, para expor ou reprimir suas posições, e quem sou eu pra cravar que ambos erraram? Mas é fato que Romário recorreu a termos ásperos, que fariam meu sangue ítalo-brasileiro ferver em segundos. Como não sou técnico da seleção...

Pode-se alegar que Mano foi prudente, ou esnobe - depende do ponto de vista. Não quis bater boca com o parlamentar por considerar perda de tempo, o que não deixa de ser verdade. Afinal, deve explicações aos chefes Marin e Sanchez. Não abdicou do jeito low profile e usou dessa tática para esvaziar o quiproquó. Como amante do futebol, queria ver o professor rebater as cutucadas sérias de um personagem importante do esporte. Deveria, pelo menos, ter soltado nota oficial, quem sabe lamentando o destempero verbal, a falta de polidez, as insinuações. Algo assim.

Ao ser politicamente correto, Mano deixou interrogações no ar, munição farta para quem deseja vê-lo fora do cargo. E Romário cantou de galo. Mas, como filosofa o mano da piada: cada um com seus pobrema... Se bem que seleção é assunto nacional.

Adeus, Felix. A seleção de 1970 é tão mítica, especial e mágica que foi usada pelos espanhóis, recentemente, como único termo de comparação à altura do que para eles representa a Fúria atual (rebatizada de Vermelha). Os heróis do tri há quatro décadas despertam admiração geral. Quem viu não esquece. Quem não viu, inveja os mais velhos. Pois Félix era uma espécie de patinho feio entre tantos cisnes. Na época, não o consideravam um grande goleiro. Rematada bobagem, que o tempo se encarregou de desmentir. Vá em paz, gigante.

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