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Balotelli

Mario Balotelli, na manhã de sexta feira última, desvencilhou-se de toda a rede de segurança que protege a seleção italiana no hotel em que se hospeda, e saiu caminhando pelas ruas de Salvador. A delegação italiana desesperou-se por um ato tão arriscado exatamente no dia seguinte às manifestações de rua na capital baiana, no que deve ter sido acompanhada por preocupados funcionários do hotel.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2013 | 02h13

O jogador desprezou tudo isso, misturou-se às pessoas na rua, foi reconhecido e, sem se preocupar, sorria, distribuía autógrafos e posava para fotos.

Inquirido posteriormente, o técnico da Itália saiu-se com uma imbecilidade que tentou, imediatamente, transformar numa inocente piada. Declarou que Balotelli foi autorizado a sair porque "a cor da pele dele é diferente". Isto é, diferente da deles, italianos, e negra como a nossa. Por isso não corria perigo. Brincadeira ou não, Prandelli errou feio. Balotelli saiu e pôde andar como quis pelas ruas não porque é negro. Isso ajuda, num país como o nosso, a confundi-lo com um de nós. Mas é tudo. Na realidade ele pôde andar pelas ruas de Salvador como qualquer branco da seleção italiana poderia. Não estamos numa guerra civil, não estamos num processo de loucura coletiva, não precisamos nos trancar em casa por mais que informações desencontradas se esforcem para nos fazer acreditar nisso. E os estrangeiros, que entendem ainda menos que nós tudo o que está se passando, são as vítimas prediletas dessas informações. Não há nenhum motivo para minimizar ou diminuir a gravidade dos acontecimentos da última semana.

Não há nenhum motivo para menosprezá-los e esse seria um erro irreparável dos poderes públicos. Quando a rua fala o governante que se preza ouve. E age conforme o que ouviu. Dito isto, não creio que seja saudável, proveitoso ou oportuno o show de verdadeiras batalhas campais em que , sobretudo a televisão, está transformando as manifestações. As manifestações brasileiras em nada diferem das que ocorrem no mundo. E não me refiro a nenhuma Primavera Árabe, refiro-me, por exemplo à França, onde queimar automóveis é quase um esporte nacional. Há poucos anos a França inteira foi varrida por manifestações violentas de ponta a ponta e o Louvre continuou aberto. Por isso acho mais do que aconselhável, já que estamos numa coluna de futebol, baixar um pouco a bola. Sei como audiência é importante para uma emissora, mas, noite adentro, repetir mil vezes a imagem dos mesmos energúmenos quebrando as mesmas vidraças, serve apenas para multiplicar o medo de uma sociedade já suficientemente amedrontada por crimes, estupros, sequestros, etc, que nos são servidos todos os dias bem na hora da janta. Temos aqui no Brasil uma estranha dificuldade para tratar assuntos de modo racional.

Estamos sempre tomados pela emoção quando não pelo delírio. Essas manifestações são assunto novo e sério na nossa sociedade. E é mais do que necessário verificarmos sua real proporção.

Por tudo isso queria agradecer a Balotelli, esse grande craque italiano negro, que com a simples atitude de andar nas ruas nos mostrou o que não somos: não somos um povo de selvagens enlouquecidos, não somos um bando de malucos, não somos um país à deriva. Somos um país com problemas. Só.

Nada temos contra o futebol, o que seria inconcebível num país cinco vezes campeão do mundo, cuja arte de jogar é cantada em verso e prosa por todo o planeta. A Fifa, porém, é outra história, e qualquer pessoa que tenha se dado ao trabalho de ler os cartazes nas manifestações sabe o que pensa dela boa parte da juventude e do público brasileiros.

Balotelli, talvez impelido pelo momento, com sua rebeldia inata, sua irreverência, sua dificuldade de se dobrar a regras e recomendações absurdas, resolveu fazer a sua própria e solitária manifestação a nosso favor.

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