Divulgação/ Comitê Paralímpico Colombiano
Divulgação/ Comitê Paralímpico Colombiano

Barra brava colombiano descobriu rúgbi paralímpico após levar tiro em briga de torcida

Charly Neme é o capitão da seleção de seu país, bronze no Parapan de Lima, com vitória sobre o Brasil

João Prata, enviado especial a Lima, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 18h40

A vida era uma festa para o colombiano Charly Neme na adolescência. Roubava uns trocados nas ruas de Bogotá, gastava com drogas e para assistir aos jogos do Millonarios. Não tinha responsabilidades e nenhuma preocupação em se manter vivo.

Pertencia a uma torcida organizada do clube do coração e andava em bando. Em 4 de outubro de 2007, com 15 anos, ia com os amigos para mais um jogo. Eles haviam comprado uma nova bandeira do clube e caminhavam pelo bairro onde morava, quando encontraram com torcedores do Nacional de Medellín. "A gente começou a brigar e, durante o confronto, dispararam contra mim. Foi à queima roupa", disse em entrevista ao Estado.

O tiro atingiu a quinta vértebra e ele perdeu o movimento das pernas. Foram três anos difíceis de recuperação. "Não era só ter de me recuperar fisicamente, mas mentalmente também. É difícil querer viver depois de ficar em uma cadeira de rodas. Tinha dias que acordava com vontade de seguir vivendo, mas na maioria não era assim", comentou.

As coisas começaram a mudar quando um amigo lhe apresentou o rúgbi em cadeira de rodas. O primeiro treino foi impactante. "Comecei a jogar e comecei a receber pancadas de outros cadeirantes por todos os lados. Perguntei ao treinador se aquilo estava valendo. Ele disse que sim. Aí gostei muito (risos). Desde então sabia que Deus tinha um propósito grande comigo."

Charly levava jeito para a modalidade e rapidamente chegou à seleção colombiana. Nos Jogos Parapan-Americanos de Lima, foi o capitão da equipe que venceu o Brasil na disputa pelo bronze placar de 46 a 43 e é um dos melhores defensores do continente. O período antes da cadeira, quando pertencia à organizada, resumiu como uma época "de uso de drogas e roubos." 

Hoje é casado e tem uma filha e mantém a paixão pelo futebol. "Sempre gostei, gritar um gol, apoiar a equipe no estádio move muitas emoções", comentou. "O objetivo nunca é brigar, claro, a ideia é sempre apoiar a equipe. Mas no calor da partida, na adrenalina para torcer pelo time, às vezes não se mede as consequências em momento de euforia." 

Pai e marido, agora sabe que existem outras prioridades. O Millonarios caiu uns degraus em sua lista, mas ainda está em seu coração. "Não acho que pertencer a uma torcida organizada seja ruim. É necessário que todos sejam mais conscientes . É muito legal torcer para uma equipe, é bom ir ao estádio, mas não é legal fazer o mal para o outro. Não faz bem carregar no coração tanto rancor", encerrou.

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