Barraco no chão, Ana foi para o outro lado do córrego

Quando chegou à Comunidade Fatec, 32 anos atrás, Anazira Souza Tavares viu no lugar muitas semelhanças com a pequena Anhumas, cidade a 560 km da capital onde nasceu. "Aqui era uma chácara, do japonês. Tinha plantação e criação. Ele plantava de tudo, mas também tinha muito mato"", recorda ao falar do terreno que tem um dos acessos pela Avenida Águia de Haia, bem em frente ao terminal de ônibus AE Carvalho.

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Sem pensar duas vezes, Ana, como é conhecida na região, se "estabeleceu"". Pouco depois, o "japonês"" - de quem não lembra nem o nome - foi embora (talvez porque ocupasse irregularmente um terreno público) e a comunidade começou a crescer. Hoje, 800 famílias, de acordo com cálculos dos moradores, estão no local.

Trabalhando como empregada doméstica, copeira, auxiliar de limpeza, Ana também cresceu e expandiu o patrimônio. Seu barraco, às margens do córrego, tinha quarto, sala, cozinha e um bom quintal, onde ficavam seus cachorros (atualmente são nove) e dezenas de galinhas. "Gosto de criação"", justifica.

Até que um dia, meses atrás, chegaram avisando que tudo iria para o chão, por conta da construção de um Parque Linear e das obras da Copa. "O que eu mais me admirei é que chegaram de supetão e na segunda reunião já desapropriaram"", conta Ana.

À beira do córrego, a casa de Ana foi um das primeiras a ir para o chão. Restou a ele pegar suas coisas - móveis, duas geladeiras, fogão, um freezer bem surrado e a máquina de lavar, o seu xodó -, atravessar a pinguela com cuidado e espalhá-los pelos cubículos onde vivem alguns de seus filhos, do outro lado do córrego. "Mas minha cômoda ficou lá, no meio do terreno (protegida por uma capa de plástico)."" Ela diz ter recebido os R$ 4.300 pagos pela desocupação do lugar, mas não pensa em sair. "Vou para onde? Estou velha (73 anos), doente do coração e sempre cuidei de mim. Agora, o que vou fazer?"".

Sem aposentadoria, Ana atualmente se cuida colhendo material para reciclar pelas ruas do bairro. Às vezes, tem ajuda do filho Anderson, de 33 anos. Com a reciclagem, ganha R$ 250 nos meses bons. "Não dá para nada""'', diz o óbvio.

Ainda mais para quem tem pendurada na geladeira conta de água de R$ 61,55 atrasada para pagar. A conta é dos barracos de seus filhos. Do outro lado do córrego, todos têm endereço registrado. Alguns pagam água e luz. Outros dão o conhecido jeitinho.

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