Barulho por nada

É impressionante como, no universo da paixão nacional chamada futebol, alguns acontecimentos aparentemente simples ganham repercussão desproporcional. Até por dever de ofício, eu não sou daqueles chatos que acham absurdo o espaço que o futebol ocupa na mídia. Pelo contrário. É fato que em todas as épocas da humanidade, em todos os cantos do mundo, diferentes formas de entretenimento foram comentadas com intensidade semelhante aos assuntos tidos como mais nobres. Das primeiras caçadas, registradas nas paredes das cavernas - uma mídia nobre na pré-história -, às temporadas de ópera na Europa dos séculos 17, 18 e 19, das apresentações teatrais na Inglaterra vitoriana às touradas espanholas, das corridas de cavalos ao críquete, passando ainda por outras formas de arte e entretenimento, como a música popular e o cinema, a espécie humana sempre fez questão de deixar bem claro de que não quer viver só de pão. Gostamos de circo, também. E o futebol é circo de primeira, em todos os sentidos.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2012 | 03h02

Mesmo sabendo de tudo isso, confesso que fiquei atordoado com a cobertura avassaladora que o gol perdido pelo rubro-negro Deivid ganhou em todas as mídias no Brasil. Parecia que o jogador tinha começado uma guerra mundial, retornado de Marte ou descoberto a cura do câncer. Para qualquer lugar que olhássemos, lá estava a imagem do desafortunado centroavante, com o olhar esgazeado, lamentando o lance. É verdade que o gol perdido foi espantoso: não só pela forma como o atacante conseguiu acertar a trave depois de um cruzamento que, mesmo de canela, uma criança mandaria às redes, mas também pela crueldade do rebote, uma segunda chance igualmente imperdível e igualmente desperdiçada, dado o estado de choque em que o pobre artilheiro se encontrava. Um lance incomum, sem dúvida, mas será que para tanto estardalhaço? Se fosse numa final de Copa do Mundo, ainda vá lá. Mas numa semifinal de turno de um estadual? Soou como muito barulho por nada.

Outra situação que poderia ter sido resolvida sem qualquer estardalhaço foi a não liberação pela CBF do meia Lucas, do São Paulo, para enfrentar o Palmeiras no clássico paulista deste fim de semana. O caso era absolutamente banal. Bastaria à CBF permitir que o atleta embarcasse logo após o jogo para que tudo se resolvesse suavemente. Mas a CBF, que já não tem uma relação tranquila com o São Paulo, resolveu tripudiar: além de não liberar Lucas, liberou o zagueiro Dedé, do Vasco, para enfrentar o Fluminense. O argumento, frouxo, foi o de que Dedé estava envolvido em uma decisão. Só que não podemos dizer que uma decisão de turno é tão diferente de um clássico num campeonato de pontos corridos, como o Paulistão. A rigor, não é impossível que o Vasco perca a final da Taça Guanabara e ainda consiga sair campeão, da mesma forma que o São Paulo pode ficar fora das finais e perder o título justamente por conta de três pontos perdidos num clássico.

Esses 2 pequenos exemplos - pequenos, que se tornaram imensos - provam o quanto o nosso velho esporte bretão ainda não consegue viver sem muito barulho. E não necessariamente o barulho bom das arquibancadas.

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