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Ugo Giorgetti
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Basquete, adeus?

Acabou a Copa América de Basquete, que servia para classificação ao próximo mundial na Espanha. O Brasil, quarto maior ganhador de campeonatos mundiais da história, se despediu sem ganhar um só jogo, derrotado quatro vezes por países sobre os quais sempre tivemos vantagem.

Ugo Giorgetti,

15 de setembro de 2013 | 02h05

Perdemos do Uruguai, Canadá, Porto Rico e Jamaica. Com esses resultados pela primeira vez na história dos mundiais estamos fora. A menos, é claro, que nos façam um convite especial, isto é, uma esmola, uma espécie de migalha, atirada em nome das grandes épocas do nosso basquete. Pessoalmente, exatamente em nome do grande basquete de outros tempos, acho melhor não ir. Pra que? Pra ser coadjuvante humilde, onde éramos campeões ou perto disso?

Esse resultado pavoroso da seleção brasileira de basquete tem que nos fazer abrir os olhos e tentar começar tudo de novo. Perdemos o bonde da história nesse jogo. Em algum momento perdemos inclusive a noção da realidade. Muitas vezes, em passado mais ou menos recente, pensávamos que tínhamos um time quando tínhamos apenas um ou outro fenômeno, que em quadra nos enchia os olhos, mas para o time tinha poucos efeitos práticos.

Fascinados pelo futebol, onde o talento individual é praticamente tudo, confundimos esse esporte com o basquete. No basquete o conjunto é praticamente tudo e o talento individual uma arma a ser utilizada convenientemente. Passamos anos nos enganando e agora chegou hora de verdade. Todos se perguntam o que aconteceu nessa Copa América. Como perdemos para adversários tão fracos, alguns sem qualquer tradição no basquete? A resposta me parece simples: porque estamos tão fracos quanto eles. Não adiante jogar a culpa sobre Rubens Magnano, o técnico argentino. Talvez uma ou outra modificação na convocação produzisse resultado um pouco diferente, mas, no conjunto, mudaria pouco. Obteríamos uma ou outra vitória, que seria igualmente enganadora como foi a não tão distante classificação para a Olimpíada, com o mesmo treinador.

Faltaram os jogadores da NBA, os que não vieram. Também não concordo. Leandrinho, Nenê, Varejão, ou mesmo Spliter não são, infelizmente, grandes jogadores. Nenhum deles se coloca entre os jogadores realmente importantes da liga. São apenas jogadores úteis, que podem eventualmente ser bons jogadores. Não grandes, não do porte de um Ginobile, por exemplo.

Os nossos comentaristas sabem disso. O desalentado Vlamir Marques tenta se conter para não ser mais duro, mais contundente. Mas até pelo seu tom de voz sente-se a revolta pelo que vê. Tenta poupar os atletas e isso é realmente o que se espera de alguém tão ligado ao basquete, mas é quase impossível.

Eduardo Agra, outro comentarista, outro grande ex-jogador da seleção, também tenta evitar dizer toda a verdade, evita crucificar colegas que estão na quadra mas percebe-se nele o mesmo desespero. Que fazer? Acho que o único a fazer é parar de nos enganarmos e pensar em começar do zero. Na base, nos juvenis talvez até já seja tarde. Como pode um atleta todo desconjuntado chegar á seleção? Como pode alguém com tão poucos fundamentos do jogo defender o Brasil? Culpa do jogador? Não, culpa, se culpa há, dos primeiros treinadores que foram incapazes de corrigir erros, posturas e compreensão do jogo enquanto era tempo.

Lembro dos grandes dias do basquete e penso que não foi Kanela, o grande treinador dos dois mundiais conquistados, o único responsável pelos títulos. Ele recebeu jogadores prontos, trabalhados, dominando todos os fundamentos, das mãos de gente como os irmãos Guaranha, Angel Crespo, Robertinho, os dois Pedrocas e outros, que passavam meses e meses corrigindo pacientemente falhas, ensinando posturas e como se portar numa quadra. Ainda há treinadores como eles? Não sei, mas se não existem é bom inventá-los rapidamente. Ou dizer adeus.

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