Basquete ano zero

Começar de novo! Depois dessa vitória contra a Argentina aguardo ansiosamente um recomeço. Uma vida nova para o nosso basquete. Ninguém que não conheça a situação do basquete nas Américas é capaz de entender completamente o que foi essa vitória. Ela veio depois de dezesseis anos de derrotas consecutivas para a melhor, a mais notável geração que a Argentina jamais produziu no basquete. Essa equipe argentina ganhou tudo, bateu americanos em finais, e seus ídolos são jogadores muito respeitados em todas as partes do mundo. Vários deles, destacaria Manu Ginóbili, são verdadeiros astros da incrível NBA, a liga de basquete profissional americana. Ginóbili foi várias, não uma, várias vezes, campeão do duríssimo campeonato da NBA jogando pelo San Antonio Spurs, onde ainda continua. Portanto essa vitória sobre a Argentina, na quadra do adversário, equivale quase aquela em que a equipe de Marcel e Oscar venceu de maneira espetacular a equipe norte-americana, nos Estados Unidos, no Pan-Americano de 1987. Aquela equipe americana também tinha astros como David Robinson e a vitória sobre eles foi épica. Era, com esta de agora, daquelas vitórias que impulsionam um esporte, que reacendem o orgulho e a estima, enfim, são reparadoras. Mas daquela vez nada aconteceu. No fundo ela não serviu para nada, o basquete continuou uma decadência que já era visível naquele tempo e hoje até mesmo os heróis, os grandes jogadores daquela epopeia, estão quase esquecidos.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

Daquela época para cá só tivemos decepções. Como é possível que um esporte tão importante, de tantas conquistas para o Brasil, seja administrado de maneira tão desastrosa? Como é possível que nada, absolutamente nada, conseguiu por tanto tempo mudar qualquer coisa na direção do nosso basquete? Como esse esporte conseguiu se fossilizar até atingir um estágio de virtual desaparecimento, pelo menos em termos internacionais? Para mim é um mistério. Mas mistérios são comuns neste País, onde muita coisa devia mudar e não muda. No basquete é pior, porque dado o predomínio absurdo do futebol, jaz numa espécie de sombra, uma confortável sombra, onde se pode perpetrar qualquer desmando sem ser incomodado pela imprensa, com os olhos voltados para outra parte. E das sombras o basquete escorregou para as trevas. Mesmo internamente a destruição é incrível, a começar por São Paulo. Centro da maior importância, fornecedor de grandes jogadores para a seleção brasileira desde a Olimpíada de 1948, São Paulo está reduzido a nada.

Onde estão os grandes times? Onde está o Sírio, de Amaury e Vitor, o Corinthians de Miltinho e Laerte, o Palmeiras, de Jatyr e Edson, o Monte Líbano, mais recente, de Cadum e Israel? E no interior do estado, onde está o grande XV de Piracicaba, de Vlamir e Pecente, o São José dos Campos, de Edvar e Pedro Ives, o São Carlos de Rosa Branca e Bebeto? Todos desaparecidos, dormindo profundamente, como depois de uma noite de São João passageira, fugaz. Só Franca resiste como pode e ainda sustenta as tradições do grande basquete paulista. Só Franca ainda enche ginásios e embora as dificuldades a façam mudar de nome frequentemente, não muda o caráter e o espírito de luta. Mas é pouco.

Não posso crer que todo o estado de São Paulo se resuma unicamente a Franca. E é o basquete de São Paulo que precisa renascer. Sem ele, sem a força do estado, da enorme energia paulista, talvez nunca voltemos a ocupar o lugar que já foi nosso na América e no mundo. É por isso que vejo essa impressionante vitória sobre os argentinos como um marco e um sinal. Mais um, como a distante vitória de Indianápolis. Ela mostra, como aquela, que podemos reagir, que o basquete apesar de tudo esta vivo, que nada pode destruí-lo e que faz parte dos nossos grandes esportes e de nossas conquistas mais consagradoras. Essa vitória vem, acima de tudo , mostrar onde deveríamos estar, ao invés de ter que disputar penosa e humildemente um lugar numa olimpíada. Para quem ,como eu, que viu ginásios lotados e viveu o auge desse jogo empolgante, é tempo de novas esperanças.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.