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Bauza não é Osorio

Edgardo Bauza não tem nada a ver com Juan Carlos Osorio. Comparado a seu antecessor, o novo treinador do São Paulo pode ser definido como um profissional de ideias conservadoras. O melhor agora, antes de qualquer tipo de julgamento sobre os estilos que se alternam no comando da equipe, é dar ao argentino as condições de trabalho que o clube negou ao colombiano.

Paulo Calçade, O Estado de S. Paulo

21 de dezembro de 2015 | 05h44

Osorio tinha coragem incomum para o mundo do futebol. Assumia riscos e colocava sua ousadia em campo. Chegou a marcar a bola parada nos escanteios com apenas quatro defensores. Loucura?

Talvez sim, para quem não esteja acostumado a quebrar os padrões. E, neste caso, o padrão determina que pelo menos oito jogadores se posicionem na área.

Para combater essa tropa, o adversário poderia utilizar o mesmo número de “atacantes”. E assim ficava tudo como a gente vê por aí. Com quantidade menor de “defensores”, entretanto, Osorio obrigava o oponente a se preocupar com contra-ataques mais robustos, que seriam realizados por cinco ou seis jogadores. Quem está certo?

Nesse ramo nem sempre existe certo ou errado. O futebol é mais rico do que se imagina quando é fruto do questionamento, do incomodo e da novidade. O jogo está para ser criado, recriado e jogado de maneiras diferentes.

Bauza não fará testes e não terá a ousadia de Osório. Mas isso não é problema, apenas revela sua identidade futebolística e as opções que o levaram a conquistar duas Libertadores nos últimos sete anos, com a LDU em 2008 e com o San Lorenzo no ano passado.

O cartão de visitas de seus times é a vontade transformada em pressão no adversário para recuperar a bola. Jogadores contemplativos, distanciados uns dos outros, que precisam chamar um táxi quando é obrigatório dividir as tarefas defensivas, devem perder seu espaço.

O São Paulo de Bauza vai trabalhar muito, será organizado. Como ele costuma dizer, não basta apenas jogar bem para conseguir vencer a Libertadores. Sua linha defensiva é correta, a primeira missão dos laterais é óbvia, defender. Não se trata de um retranqueiro, mas de alguém que reconhece que sem equilíbrio não se conquista nada no futebol.

O saldo de gols do São Paulo no Brasileiro foi de somente seis gols. Mesmo instável, o time terminou a competição com uma das vagas na competição internacional. No campeão Corinthians, essa diferença foi de 40 gols. Equilíbrio não é retranca, é ação, inteligência, competência.

O torcedor pede garra e se identifica com jogadores que deixam o coração em campo. Isso explica a idolatria por Lugano. A garra em excesso pode ser a representação de uma equipe mal estruturada. É quando o time vira um bando e precisa se desdobrar para alcançar resultados que a sistematização traria.

Equipes organizadas parecem ter menos garra, como o Corinthians de Tite, que não se parece em nada a outras versões do passado. O que o são-paulino quer é jogador com compromisso, que jogue coletivamente e respeite a instituição, aquilo que nem os cartolas foram capazes de fazer em 2015. 

Por mais informações que o treinador tenha de seu novo empregador, tomara que antes de contratá-lo os dirigentes tenham contado toda a história, diferentemente do que fizeram com o colombiano.

A reconstrução do futebol tricolor ocorre em meio a uma gravíssima crise institucional. Com escassos recursos para contratações e com o dólar no céu, o São Paulo vai precisar de muito trabalho e conhecimento do mercado para se recuperar em 2016.

Não basta se modificar apenas nos gramados, é fundamental restabelecer a idoneidade da instituição depois das graves denúncias de corrupção que envolvem a antiga diretoria. Essa bola, agora, está com o Conselho Deliberativo.

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