BBC diz que Fifa e Teixeira receberam propina de empresa suíça nos anos 90

Emissora britânica fez revelações contra dirigentes durante programa investigativo exibido ontem à noite

Jamil Chade CORRESPONDENTE GENEBRA, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2010 | 00h00

O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, recebeu pagamentos em uma conta em Liechtenstein de US$ 9,5 milhões (cerca de R$ 17 milhões) da empresa suíça ISL entre agosto de 1992 e 28 de novembro de 1997. As remessas seriam feitas em 21 parcelas de US$ 250 mil (R$ 450 mil) cada para uma empresa fantasma registrada num paraíso fiscal. A acusação foi ao ar ontem na rede BBC e publicada pelo jornal suíço Tages-Anzeiger.

A emissora britânica afirmou que o valor das propinas pagas pela ISL a representantes da Fifa ultrapassaria os US$ 100 milhões (R$ 180 milhões). Os pagamentos seriam feitos por meio da criação de empresas fantasmas por parte de integrantes do Comitê Executivo da entidade. Em um documento obtido pela BBC, constam 175 pagamentos aos dirigentes da Fifa. Parte deles iria para o que a BBC chamou de "o homem encarregado da próxima Copa do Mundo, no Brasil em 2014. Ele é Ricardo Teixeira".

A empresa que recebeu propinas e que aparece na lista revelada ontem é a Sanud, com base no principado de Liechtenstein e um dos principais paraísos fiscais do mundo, a apenas alguns quilômetros da sede da Fifa, em Zurique. Mas a BBC descobriu que se trata da mesma companhia que a CPI do Futebol no Brasil já havia indicado como tendo participação de Teixeira. Segundo a BBC, perguntas foram enviadas ao presidente da CBF, mas não foram respondidas. A reportagem também tentou falar com o brasileiro em Zurique, sem sucesso.

Além de Teixeira, o programa questionou também um pagamento da ISL para "Garentie JH" no valor de US$ 1 milhão. A emissora especula se tal pagamento não seria para João Havelange, já que JH são suas iniciais.

As informações foram publicadas e divulgadas às vésperas da escolha das sedes da Copa de 2018 e de 2022. Na quinta-feira, a Fifa recebe reis, chefes de estado e personalidades de nove países que buscam organizar a Copa do Mundo. O processo, porém, tem sido marcado por acusações de corrupção e polêmicas. A Fifa já afastou seis de seus cartolas, flagrados em vídeos nos quais negociavam seus votos em troca de milhões de dólares. Mas apenas aplicou multas leves.

Agora, as revelações apontam para Teixeira, potencial candidato à presidência da Fifa em 2015. O autor da reportagem no jornal suíço, Jean Francois Tanda, explicou ao Estado que teve acesso a documentos internos da ISL que mostrariam os depósitos para a Sanud. Em um trecho, o nome da empresa aparece ao lado de uma menção à Adidas, com um valor de US$ 100 mil. Os mesmos documentos foram obtidos pela BBC.

Conmebol. A companhia seria usada para receber os recursos da já falida ISL, empresa que comercializava os direitos de transmissão da Copa e que foi acusada de pagar propinas para garantir contratos. Na cidade suíça de Zug, um tribunal ainda revelou, em julho, que o presidente da Conmebol, Nicolas Leoz, também recebeu recursos da ISL por meio de empresas de fachada. O problema é que, nos anos 90, o pagamento de propinas por uma empresa na Suíça não era ilegal, contanto que o dinheiro não saísse do país ou de Liechtenstein.

Em julho, um acordo no Tribunal - e a devolução de parte desse dinheiro - encerrou o caso e os nomes jamais foram revelados. O problema é que a lista com os nomes vazou para a BBC.

A notícia sobre Teixeira vem um dia depois que outro jornal suíço, o Sonntags Zeitung, revelou que integrantes do Comitê Executivo da Fifa mantinham empresas de fachada usadas para receber propinas.

Investigação. Se a Fifa deu o caso por encerrado, o mesmo não ocorreu com as autoridades suíças. Ontem, o Ministério Público de Zurique confirmou que vai investigar se eventuais pagamentos de propina não ferem as leis. Hoje, pelas normas do país, representantes de entidades internacionais, como a Fifa, não podem ser alvo de acusações por parte de procuradores suíços. Mas o governo já indicou que não está disposto a ser plataforma para que entidades usem a Suíça para corrupção.

A Fifa insiste que não tem motivos para aceitar uma investigação externa, uma vez que já teria punido os que não respeitaram o código de ética, entre eles um vice-presidente. Mas as autoridades suíças não estão satisfeitas. Ontem, o diretor do Departamento Federal para os Esportes, Matthias Remund, anunciou que uma investigação separada seria conduzida para determinar se as leis do país foram violadas.

O próprio ministro de Esportes, Uli Maurer, diz que o fim da imunidade que goza a Fifa terá de ser abolido. A entidade insiste que é uma entidade sem fins lucrativos. A cada ano, no lugar de declarar que tem lucros, apenas afirma que possui um superávit de milhões de dólares. Nos últimos quatro anos, esse superávit chegou a US$ 678 milhões.

PARA LEMBRAR

CPI investigou dirigente e Sanud em 2001

O envolvimento de Ricardo Teixeira com a empresa Sanud não é novidade para as autoridades brasileiras. O tema foi alvo de investigação durante os trabalhos da CPI da CBF/Nike, que movimentou o Congresso Nacional em 2001. Na ocasião, os parlamentares obtiveram documentos, que, segundo os responsáveis pelas investigações, mostrariam um sistema de lavagem de dinheiro.

Por meio de uma de suas empresas no Brasil, a R.L.J. Participações, Teixeira teria se associado à Sanud, então baseada em Liechtenstein. A empresa estrangeira mandaria dinheiro para integralizar as cotas da parceria. Com essa justificativa, Teixeira teria recebido R$ 2,9 milhões entre 1992 e 2000.

As tais cotas, porém, nunca foram integralizadas. Ou seja, a sociedade não se concretizou. Os investigadores quiseram saber, então, por que a empresa mandava recursos se não existia sociedade. A resposta é de que se tratava de empréstimos.

O problema é que não há registros de cobrança de tais empréstimos por parte da Sanud. Os investigadores suspeitam que o dinheiro usado era do próprio Teixeira, que estaria lavando no processo. A CPI não deu em nada e Teixeira saiu ileso.

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