Divulgação/MLB
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Beisebol no interior dos Estados Unidos: entra a torcida, saem os autógrafos

Major League Baseball iniciará a temporada abreviada pela pandemia esta semana, mas não haverá torcida nas arquibancadas

Tim Arango/The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 10h00

Por um momento, esqueça todo o resto e dê uma olhada no seguinte: A camisa número 8, hoje aposentada, até então vestida nesta cidade por Roger Maris, amado filho de Fargo, exposta da primeira base. A bandeira vermelha, branca e azul estendida sobre as arquibancadas. Os jogadores se aquecendo para lá das linhas de falta.

As pessoas vão chegando e encontrando seus lugares. Perto dali, o grande mascote vermelho está se preparando. A qualquer momento, os árbitros vão chegar, já uniformizados, trazendo suas bolas de beisebol e caminhando direto do estacionamento para o campo.

Demorou para chegar, mas chegou: o dia da abertura da temporada. A última vez que o Fargo-Moorhead RedHawks jogou foi em setembro do ano passado. “Não sabíamos o que aconteceria nos próximos meses”, diz Jack Michaels, locutor do time há mais de 25 anos, grita para o público. “Mas só sei o seguinte: 297 dias depois, os torcedores estão nas arquibancadas, as equipes estão nos vestiários e o beisebol está de volta”.

A Major League Baseball iniciará a temporada abreviada pela pandemia esta semana, mas não haverá torcida nas arquibancadas. A temporada da Minor League foi cancelada, deixando dezenas de cidades pequenas sem beisebol. Duas importantes ligas independentes, a Atlantic League e a Frontier League, também não estão jogando.

Isto nos deixa com quatro cidades do interior dos Estados Unidos – Fargo; Sioux Falls, Dakota do Sul; Franklin, Wisconsin; e Rosemont, Illinois – onde jogadores de beisebol profissional estão jogando diante da torcida, com cautela e alegria, mas não muita normalidade.

Depois de meses de incerteza, a Associação Americana – uma liga independente em que os jogadores ganham cerca de US $ 2 mil por mês e cujos elencos contam com vários ex-jogadores da Minor League e uns poucos da Major League – começou sua temporada no fim de semana de 4 de julho.

Seis equipes em quatro cidades. Impedidos de sediar jogos no Canadá, os Winnipeg Goldeyes estão mandando suas partidas em Fargo, onde as dimensões do Newman Outdoor Field são iguais às do estádio dos Yankees – mais uma homenagem a Maris. 

Os St. Paul Saints jogarão em Sioux Falls, onde numa série de jogos recentes eles usaram o vestiário de uma arena de hóquei que estava organizando um rodeio profissional do Bull Riders e, para chegarem ao campo, atravessaram um estacionamento, os cravos das chuteiras triturando o asfalto.

“No momento, há muitas coisas em que pensar”, disse Chris Coste, diretor interino do RedHawks que jogou em todos os níveis do beisebol profissional, daqui de Fargo até o Philadelphia Phillies e a Liga Mexicana. “Torcida. Saúde pública. Saúde dos jogadores. Vitórias. Na abertura da temporada, quase tudo tem a ver com beisebol. Mas hoje tem a ver com algumas coisas além do beisebol”.

Um novo começo

Mas só o beisebol já é suficiente para Nancy e Terry Peterson. Eles perderam apenas um dia de abertura em Fargo desde 1996 e disseram que valia a pena correr o risco de voltar ao estádio e recuperar uma certa normalidade, um certo ritual. Os sinais da pandemia, porém, estão por todos os lados: uma destilaria local, fabricante de uísque e gin, fornece estações de álcool gel para as mãos; todos os funcionários, assim como os árbitros, usam máscaras; cordas foram amarradas na arquibancada para garantir o distanciamento social, fileira sim, fileira não.

Os Peterson chegaram cedo porque o time está vendendo apenas um número limitado de ingressos – mais ou menos metade da capacidade de 4,5 mil do estádio, em obediência aos protocolos do vírus – e eles querem pegar os assentos de sempre. Já dentro do estádio, Terry Peterson está muito feliz: “O beisebol voltou. A cerveja está gelada. O sol está brilhando”.

No final da terceira entrada, Blake Grant-Parks, que chegou a ser sondado pelo Tampa Bay Rays, arranca para o primeiro home run do ano, pelo lado esquerdo do campo. No gramado, os RedHawks – cumprindo avisos para evitar o contato físico – só conseguem abrir sorrisos e dar uns cumprimentos meio desajeitados, fantasmagóricos.

Eles também não devem cuspir sementes de girassol nem mascar tabaco, mas, se você olhar de perto, vai ver que esses vícios do beisebol são difíceis de quebrar. Também é proibido dar autógrafos e jogar bolas sujas para as arquibancadas.

No final da nona entrada, Dario Pizzano chega ao home plate. Ex-jogador do ano da Ivy League por Columbia que jogou na Class AAA pelo Seattle Mariners, Pizzano, 29 anos, passou os primeiros meses da pandemia com sua noiva num apartamento em Hoboken, Nova Jersey, torcendo pelo retorno da temporada. Em Fargo, ele rebate a bola para longe, rente ao chão, e já está salvo.

O distanciamento social logo é esquecido na euforia do momento, agora cheio toca-aqui e tapas nas costas. A tacada não garante a vitória para os RedHawks, mas quando começam a estourar os fogos de artifício, com Bruce Springsteen tocando nos alto-falantes, parece que o verão americano está restaurado.

“Não tem roteiro para isto”

Todos os dias, quando os jogadores chegam ao estádio em Fargo, eles encontram um estagiário na entrada que mede sua temperatura e lê uma folha impressa: “Até onde você sabe”, começa a pergunta, “você teve contato direto com alguém que testou positivo para covid-19 nas últimas 24 horas?”

Cada dia avança contra uma corrente de ansiedade.

Já houve um susto: dois jogadores do Milwaukee Milkmen deram positivo para o coronavírus e o jogo foi cancelado. Os atletas foram retirados de suas casas ou das casas das famílias que os acolheram, entre eles o campista-central que mora com o dono da equipe, e colocados em quarentena num hotel até que todos fossem testados mais uma vez e liberados para jogar.

“Não tem roteiro para isto”, disse Duell Higbe, gerente geral do Sioux Falls Canaries. “Ninguém nunca tinha feito isto antes. Estamos matando um leão por dia”.

Diferentemente das grandes ligas, que contam com as receitas de televisão, jogar sem torcedores nunca foi uma opção para a Associação Americana.

“Chance zero”, disse Brad Thom, presidente dos RedHawks. “A torcida é a nossa força vital”.

Mesmo assim, cada equipe, por melhor que seja a temporada, provavelmente vai perder centenas de milhares de dólares. “Falando francamente, é um desastre”, disse Thom. “Estamos calculando perdas de seis dígitos”.

O estádio de Sioux Falls, conhecido como Birdcage [Gaiola], foi construído no final da década de 1960 e possui todos os encantos assimétricos de um estádio antigo: recantos e ângulos estranhos no campo externo, uma área gramada que se projeta para além da terceira base até o local do velho placar.

Enquanto a torcida chegava para o jogo no fim da tarde – apenas algumas centenas apareceram sob o calor escaldante, mas viram seus Canaries derrotarem os Saints por 3 a 0 – o locutor dizia aos torcedores que eles estavam assumindo o risco de contrair o vírus no estádio. Ele pedia para que obedecessem ao distanciamento social “para que possamos jogar beisebol aqui no Birdcage durante todo o verão”.

Foram necessários apenas alguns jogos para o primeiro gerente ser expulso por violar as diretrizes de distanciamento social. Essa honra coube a Anthony Barone, do Milkmen, que ultrapassou a linha da terceira base para reclamar de uma marcação errada.

“No meio do jogo, você meio que se esquece de tudo”, disse ele.

Correndo atrás do sonho, ainda

K.C. Huth, o campista-central dos Canaries, estava malhando e vendendo toldos e coberturas em Dallas quando a pandemia chegou. A academia fechou, e os campos onde ele praticava rebatidas trancaram seus portões.

“Cara, eu estava pulando as cercas, fazendo todo o possível para pegar um pedaço de grama para treinar”, disse ele.

Um punhado de jogadores da liga principal, com contratos garantidos e dinheiro no banco, decidiu não jogar nesta temporada devido aos problemas de saúde. Na Associação Americana, ficar fora não era uma opção realista.

“Os jogadores jogam nas ligas independentes porque querem entrar nas ligas maiores”, disse Rick Forney, gerente do Winnipeg. “Eles ainda estão correndo atrás do sonho de chegar aos grandes times”.

“Para esses caras, a janela de oportunidade é bem estreita”, acrescentou ele.

Quase todos os jogadores passam anos nas ligas menores ou independentes. Mas, nesta temporada, a vida está mais parada do que nunca no mundo do beisebol. Quase não há viagens e não se ouve nem uma palavra sobre a vida noturna dos jogadores.

Mike Meyer, gerente dos Canaries, disse que não conseguia dormir nas noites de sábado, sabendo que receberia os resultados semanais dos testes de coronavírus da equipe no dia seguinte.

“Esta é a temporada mais aflitiva e estressante que já tive nos meus vinte anos de beisebol”, disse ele.

Para muitos torcedores, porém, o retorno do beisebol significou menos ansiedade em suas vidas.

Entre eles está Jerry Bowman, que desde 1994 possui o assento 17, seção R, fileira 10 no Birdcage. Aos 70 anos, Bowman é um dos poucos torcedores que usam máscara nos jogos, onde é responsável por soltar um cartaz com a letra “K” por uma tirolesa atrás do home plate do time da casa toda vez que um arremessador do Canaries tira um rebatedor.

“Fiquei surpreso e empolgado quando ouvi que o beisebol iria voltar”, disse Bowman, que passou as primeiras semanas da pandemia assistindo a velhos filmes de faroeste. “Me deu uma coisa para fazer. Sair de casa para ver beisebol. Não tem nada melhor”.

Nesse exato momento, mais um rebatedor do time visitante saiu.

“Com licença, tenho que soltar um K”, disse ele. “Já volto”. / Tradução de Renato Prelorentzou 

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