Daniel Teixeira/AE
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Bia Figueiredo supera preconceito e vence nas pistas

Em um mundo machista como o do automobilismo, a piloto se destaca com talento e perseverança

MILTON PAZZI JR., O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2011 | 00h00

Ser piloto profissional é algo que, por ano, somente dois ou três conseguem, num país que tem 190 milhões de pessoas como o Brasil. Se for mulher, então, é ainda mais difícil. Há uma exceção, apenas uma, que é um exemplo de superação: Bia Figueiredo. Aos 26 anos, ela conseguiu um contrato para todas as corridas de 2011 da Fórmula Indy.

Entrar no carro da equipe Dreyer&Reinbold neste fim de semana no circuito de rua do Anhembi é a realização de um sonho para Bia. "Não imaginava estar onde estou quando comecei com isso, aos oito anos. Achava legal acelerar. E com quatro meses de kart o Ayrton Senna morreu. Me perguntei: "Será que é isso que quero?" É sim, foi a resposta", conta, ao ser questionada sobre a superação das adversidades.

No embalo, vem a maior de todas, o fato de o automobilismo ser um esporte masculino - e machista. "Sofri muito com isso. As pessoas comigo ouviam "está gastando com essa menina, como pode", tentavam ridicularizar... Quem perdia tomava dura por perder para uma menina. Por gestos, via que muitos dos meninos preferiam perder para outros do que para mim. Teve batidas de propósito que me tiraram vitórias. Foi um aprendizado, serviu no amadurecimento."

A vida totalmente diferente das amigas é encarada com saudade. "Perdi formatura, festas, namorados... Tinha amiga que remanejava festa para eu poder ir. Mas na escola eu tinha até torcida (risos). Estudei no Rio Branco (em São Paulo) a vida toda, perdi muitas provas, mas sempre me ajudaram. Sou grata por isso."

A vaidade nunca foi deixada de lado. Carrega um batom no capacete e sempre está com as unhas pintadas - promete, inclusive, algo especial na corrida paulistana. Os estudos seguiram (fez faculdade de administração, depois de perder vários vestibulares) e, com apoio dos pais médicos, até os 12 anos ela correu de kart. A partir daí passou a se manter graças a patrocínios e vitórias em corridas. Passou pela Fórmula 3 (a única onde não ganhou, mas teve quatro segundos lugares), F-Renault e tentou a Europa, sonho dos mesmos garotos com os quais competia (entre eles Nelsinho Piquet) desde que Emerson Fittipaldi abriu o mercado, nos anos 70.

"Fiquei quatro meses na Inglaterra, morava com uma família de mecânicos. Foi onde viram que eu gostava mesmo de corrida. Tinha um machismo forte, mas ninguém bancava isso. Voltei ao Brasil e o André (Ribeiro, agente e ex-piloto) sugeriu os EUA e fiz o teste. Me apaixonei."

Foi a mudança que lhe deu o caminho de onde não quer sair. "É outra cultura. Pode até acontecer, mas hoje não penso em Fórmula 1. Quase fiz um teste com a Williams, mas não deu e já foi", diz.

As dificuldades não acabaram. Na Indy Lights (categoria de acesso) faltou dinheiro e ela sofreu acidente forte em 2009, em Indianápolis. Ano passado, só correu quatro provas da Indy. Está longe de vencer, mas... "Tenho confiança de que pode acontecer uma vitória, em dois ou três anos. A oportunidade aparece e a gente pega. Sou total privilegiada. Sou a única a chegar nisso. E se não acontecer, já valeu."

QUEM É

Nome: Ana Beatriz Figueiredo

Idade: 26 anos. Nasceu em São Paulo, em 18 de março de 1985

Carreira: Kart (1994-2003), F-Renault (2003-05), F-3 Sul-americana (2004-06), Indy Lights (2008-09) e F-Indy

MELHOR RESULTADO

2 vitórias conquistou Bia Figueiredo nos Estados Unidos, ambas na Indy Lights (categoria de acesso): Nashville (2008) e Iowa (2009). A piloto soma sete corridas na F-Indy até agora

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