Bicampeão mundial, João Derly aposta em bom desempenho do judô brasileiro

Campeão no Rio em 2007, ex-judoca diz que atletas precisam saber usar a torcida a favor

BRUNA TONI e MARCIO DOLZAN, O Estado de S. Paulo

26 de agosto de 2013 | 12h26

SÃO PAULO - Bicampeão mundial de judô e primeiro brasileiro a conquistar um título da competição - ao vencer o japonês Masato Uchishiba, no Mundial do Egito, em 2005 - o gaúcho João Derly parou de competir em 2011, mas não se afastou do esporte. Além de ser fundador do Instituto Pódium, voltado para a prática do judô de crianças e adolescentes, em Porto Alegre, ele procura acompanhar a participação dos judocas brasileiros nas competições mundo afora. E aposta num bom desempenho do País no Mundial que acontece esta semana, no Rio.

Nesta entrevista concedida ao Estado, Derly fala sobre suas expectativas para o Mundial, os maiores adversários do Brasil e sobre a pressão de se competir em casa. Foi no Rio, em 2007, que ele conquistou o bi Mundial. E ensina: "Tem que saber usar a torcida como pressão para a arbitragem, ter paciência, não querer fazer show; tem que trabalhar para o resultado, e não querer sair dando ippon em todo mundo".

ESTADÃO - Quais são suas expectativas para o Mundial?

JOÃO DERLY - As expectativas são muito boas, hoje nós conseguimos equilibrar, as equipes feminina e masculina são muito boas. Sabemos das dificuldades de um Mundial, até 2005 o Brasil não tinha conquistado nenhuma medalha de ouro, mas em 2007 o fator casa fez a diferença, quando fizemos três medalhas de ouro e uma de bronze, e eu tenho quase certeza de que vamos passar como maior número de medalhas.

ESTADÃO - Tem alguma categoria que considere que o Brasil tenha maiores chances?

JOÃO DERLY - Acho que as categorias em que o Brasil tem a liderança do ranking, com a Sarah, a Mayra, o Victor Penalber... Essas categorias têm uma chance grande, mas a gente sabe que o Brasil é cheio de surpresas, e surpresas boas geralmente.

ESTADÃO - E em relação a outros países, quais você acha que têm maiores chances, quem poderá ser os maiores adversários?

JOÃO DERLY - Varia muito de categoria. Há países que em determinada categoria há o maior adversário e, ao mesmo tempo, não tem sequer adversário em outra categoria. Mas sempre a equipe japonesa, a equipe francesa, os russos, a Coreia do Sul, são equipes fortes, homogêneas. E depois tem várias escolas, países, que têm atletas fortes em uma categoria, mesmo não sendo um país tradicional no judô - a Mongólia, por exemplo.

ESTADÃO - Você conquistou o bicampeonato mundial no Rio. A pressão de lutar em casa ajuda ou atrapalha?

JOÃO DERLY - Creio que ajuda, mas é muito pessoal. O atleta precisa trabalhar isso, que não pode ser uma pressão, e sim uma torcida. Saber usar a torcida como pressão para a arbitragem, ter paciência, não querer fazer show; tem que trabalhar para o resultado, e não querer sair dando ippon em todo mundo.

ESTADÃO - Você, particularmente, gostava de lutar em casa?

JOÃO DERLY - Gostava em casa, fora, em qualquer lugar. Mas em casa eu sabia usar bem a energia de fora (da torcida). Quando eu lutava fora eu me motivava com aquela energia pessoal de vencer, e quando era em casa eu aproveitava a energia da torcida, eu pensava 'cara, não tem como perder aqui, não tem como perder, eu vou ganhar, vou ganhar, vou ganhar'.

ESTADÃO - Com vários judocas se destacando, ganhando medalhas, liderando ranking, o judô ganhou visibilidade no Brasil. Como você avalia o momento do esporte no Brasil? É muito diferente da sua época?

JOÃO DERLY - A diferença está na evolução do judô feminino, emparelhando com o masculino e, em algumas competições, saindo até melhor que o masculino; e as questões de patrocínio, hoje nós temos uma confederação muito melhor estruturada, e isso tem se refletido nos resultados. As novas gerações já estão competindo no exterior, lutando com atletas de fora... Eu, graças a Deus, consegui competir cedo, com 17 anos, porque tinha uma bolsa e consegui juntar um dinheiro e fazer algumas viagens. Mas hoje os atletas de equipes júnior e juvenil fazem várias viagens, até para eventos do circuito europeu, e isso traz uma maturidade maior para quando chegar no sênior e traz uma renovação constante na equipe. E tem também a condição de os atletas terem um salário, que está acontecendo agora com aqueles que são rankeados, que fazem parte da lista olímpica, do Mundial... Isso é uma grande vitória.

ESTADÃO - As mudanças de regras têm sido constantes. Acha que isso atrapalha a preparação do atleta?

JOÃO DERLY - Atrapalha. Quem está no 'bolo', quem já está competindo há mais tempo, acho que prejudica um pouco. Mas prejudica todo mundo, todo mundo tem que se adaptar, e isso acontece em vários esportes. No judô foi um pouco radical, rápido demais e radical.

ESTADÃO - Ainda sobre a mudança de regras, como você vê a percepção do público? Porque muitas vezes as pessoas param para assistir às lutas, sabem que o Brasil é forte, mas não entendem ao certo como funciona a pontuação...

JOÃO DERLY - É, o judô não é tão simples. Se formos olhar, a pontuação é em japonês, mas por outro lado acompanhando o placar dá para saber. Os comentaristas, em geral, também conseguem expressar bem o que está acontecendo no tatame. E em Mundial, em competições, quem assiste do ginásio em geral conhece judô ou já praticou judô. E hoje é um número grande no Brasil. Aliás, o judô foi eleito pela Unesco como o melhor esporte para a formação das crianças.

ESTADÃO - Quando você conquistou seu primeiro ouro foi sobre um japonês, o Masato Uchishiba, que já era medalhista olímpico. Hoje alguns judocas chegam ao topo do ranking mesmo sem ter lutado com os grandes nomes. Como você avalia isso? O ranking acaba dizendo pouco sobre os melhores do mundo?

JOÃO DERLY - Não, o ranking diz sim sobre os melhores do mundo. O que acontece às vezes é que alguns atletas acabam se poupando, participando pouco de competições e fazendo poucos números no ranking, mas isso não quer dizer que quem está no topo do ranking não tenha condições de estar lá. A gente sabe que a competição é muito de detalhe, porque todos estão preparados, aptos a estarem ali, e às vezes é a motivação, o momento, que fazem a diferença do campeão para o quinto lugar.

ESTADÃO - O MMA ganhou muito espaço no País, a ponto de muitos dizerem que outras modalidades de luta foram prejudicadas. Como você vê isso em relação ao judô?

JOÃO DERLY - Creio que não interfere. O judô é um esporte olímpico consolidado no mundo inteiro, e o MMA só tem a acrescentar. Tem vários atletas do judô que partem para o MMA, como a Ronda Rousey, que foi atleta olímpica e lutou com a Mayra Aguiar nos Jogos pan-americanos. Acho que não conflita, até porque um é esporte olímpico e o outro de entretenimento.

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