Biriba, fenômeno do tênis de mesa, bate sua bolinha no Palmeiras

Fenômeno mirim causou furor ao derrotar três campeões mundiais até os 15 anos de idade, mas pendurou a raquete aos 21

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

25 de agosto de 2014 | 19h43

O agasalho "retrô" que o repórter usa, da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) logo chama a atenção de Biriba, Ubiracy Rodrigues da Costa, o maior nome que o tênis de mesa brasileiro já teve. "Usei muito esse agasalho. A gente pegava as peças usadas que o pessoal do futebol nos deixava. Todos os atletas que representavam o Brasil usavam o mesmo agasalho, porque não havia Confederação Brasileira de Futebol ou de Tênis de Mesa. Os agasalhos nunca serviam direito em mim", recorda o veterano de 69 anos, que todos os sábados vai bater uma bolinha no Palmeiras, o clube que defendeu quando estava no auge.

E havia um motivo para os agasalhos não servirem: talento revelado precocemente, Biriba tinha apenas 13 anos de idade e 1,50m de altura quando virou notícia, em 58. No bojo das comemorações do cinquentenário da imigração japonesa, vieram ao Brasil, para disputar um torneio amistoso no ginásio do Ibirapuera, dois bicampeões mundiais japoneses: Ichiro Ogimura (1954 e 56) e Toshio Tanaka (55 e 57). Por justos motivos, os orientais encaravam as partidas como uma mera demonstração de suas habilidades. E eles devem ter reforçado essa convicção quando se depararam com o adversário mirim, que tinha "os cabelos revoltos e olhar triste", segundo uma reportagem do Estadão da época.

"Supunha-se, pelas palavras de ex-jogadores da seleção brasileira, que eles iriam passear aqui e dar show na gente. Eu sinceramente não sabia, não tinha ideia e não conhecia o potencial de um campeão mundial. Perdi o primeiro jogo por 2 a 1 para o Tanaka, jogando com todo o respeito que eu tinha por um campeão mundial. E eu vi que, apesar de ele ter uma cortada muito forte, errava bastante. E aí depois eu ganhei dele e do Ogimura".

O tênis de mesa tem hoje, no Brasil, uma pequena fração da popularidade que já alcançou, e que hoje parece inacreditável. Biriba descreve assim seu triunfo: "Dei dois capotes no campeão mundial no Ibirapuera lotado, com transmissão pela TV Record, com narração do Pedro Luiz e da Rádio 9 de Julho", relembra o atleta, orgulhoso. O "capote" ocorre quando um jogador ganha do outro, num set, por mais do que o dobro dos pontos do adversário.

Alçado à glória, Biriba foi capa da edição de novembro da revista dominical do prestigiado jornal "A Gazeta Esportiva", "A Gazeta Ilustrada". Ele foi fotografado ao lado de outros dois campeões naquele ano - Maria Esther Bueno, que havia conquistado o título de duplas em Wimbledon ao lado de Althea Gibson, e de um certo Edson Arantes do Nascimento.

Mas a maior façanha do "garoto-prodígio", apelido que ganhou da imprensa esportiva, ainda estava por vir. No Mundial de 61, ele derrotou, aos 15 anos de idade, o então campeão mundial, o chinês Yung Kuo Tuan, no Mundial de Pequim, frente a um público de 15 mil pessoas. Tuan depois teria um fim trágico - preso pelo Exército Vermelho durante a Revolução Cultural, assim como outros mesatenistas, acusados de espionagem, se enforcou em 1968.

"Foi como o Big Brother. Da noite para o dia me transformei numa pessoa conhecida. Eu me tornei um dos brasileiros mais famosos no Japão e na China", conta Biriba.

A fama de Biriba na Ásia perdura. Em 96, numa visita a Tóquio, a convite, ele constatou isso in loco. "Visitei um grande magazine e fui dar uma olhada no material de tênis de mesa. E aí acabei encontrando uma raquete com o nome Biriba, fabricada pela Butterfly (principal marca de material de tênis de mesa no mundo). Acho que era a única palavra em português naquela loja. Não tive como não me emocionar".

Biriba é um talento caseiro, que começou a se desenvolver jogando ping-pong num clube criado pelo pai dele, no andar de cima de sua padaria, a Beira-Mar, na Vila Maria. Isolado dos grandes centros da modalidade, atingiu um nível inimaginável. Mas como?

"Uma das técnicas que eu usava - o mundo inteiro usa hoje - era decidir o mais breve possível, na terceira bola. Eu tinha essa índole de não esperar muito, e isso surpreendia, não dava ritmo pro adversário. Mas eu tinha recursos e amplitude de golpes - se tivesse que continuar trocando bolas, continuaria. E tinha a rapidez - pesava só 50 quilos. No mundo inteiro não tinha ninguém tão rápido quanto eu. A velocidade já começava no saque. Punha a bola na ponta da mão. E jogava na ponta dos pés, pronto pra 'entrar' na mesa. Fazia essas coisas intuitivamente. E tenho certeza de que muito do que fiz foi copiado".

Biriba tinha seus movimentos retratados no papel, por desenhistas chineses, segundo ele. Era o recurso que os estudiosos do país, que começava a se insinuar como grande potência da modalidade, tinham para tentar assimilar a técnica do jovem brasileiro, numa época em que não havia facilidade para filmar os movimentos, e de qualquer bom jogador que despontasse no cenário. 

Os anos de Palmeiras são lembrados com saudades. "O Palmeiras era a minha segunda casa. Tenho grandes recordações. Os sócios mais antigos hão de se lembrar do Bar do Baiano, que era frequentado também pelos jogadores de futebol. O clube me pagava o Colégio Bandeirantes, um dos melhores de São Paulo, e isso foi muito importante na minha vida".

A despeito de todos esses progressos, Biriba acabou pendurando a raquete aos 21 anos de idade, sem nunca ter conquistado o Mundial. "Eu vivia isolado no Brasil. Para você se desenvolver, tem que conviver com os melhores. Foi o caso do Claudio Kano, que foi aprender na Suécia com o Waldner, um dos melhores do mundo (Jan-Ove Waldner, campeão mundial em 89 e 97). No começo da carreira do Kano, eu dava dez pontos de vantagem pra ele quando treinávamos na Hebraica. Depois de ir pra Europa ele passou a ganhar de mim. O intercâmbio é fundamental. O talento não brota sozinho, não existe milagre".

A impossibilidade de viver do tênis de mesa foi determinante para a aposentadoria precoce. No começo dos anos 60, um episódio o desagradou profundamente. Muito popular no exterior, Biriba foi convidado a excursionar com o Harlem Globetrotters, para jogar com o britânico Richard Bergmann, quatro vezes campeão mundial, nos intervalos do basquete. 

"Eu ganhava uns 30 dólares por semana, só para me manter. Quando cheguei ao Brasil, a CBD quis me suspender, alegando que eu havia me tornado profissional, o que não era permitido na época. Eu passei a questionar. Tinha fama, troféu, viagens, tapinhas nas costas. Mas como iria viver e pagar minhas contas, numa época de puro amadorismo?". 

Longe das mesas, Biriba prestou concursos e se tornou servidor público, na Secretaria da Fazenda. Atravessou anos de depressão, e fez terapia por 33 anos. Passou a jogar recreativamente.

Em 89, com 20 quilos a mais, voltou a competir mais seriamente, numa tentativa de melhorar a saúde, e foi campeão brasileiro, no Rio. "Estava gordo, decadente, com problemas. Fui buscar aquele título no fundo do baú. Agradeço muito ao público carioca, que me apoiou muito. Eu não treinava direito, só batia uma bolinha à noite. Era o Ubiracy que estava lá, não era mais o Biriba".

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