Blá-blá-blá...

O respeito a opiniões diferentes é condição básica para a convivência em grupo. No entanto, quando me deparo com certas argumentações utilizadas por alguns jurássicos integrantes do Comitê Executivo da Fifa, que tentam justificar sua posição contrária ao uso de recursos eletrônicos em partidas de futebol, confesso que fico tentado a rever meus parâmetros de civilidade.

WAGNER VILARON, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2012 | 03h08

Aqueles que defendem que grosseiros erros de arbitragem - como aquele no qual a bola ultrapassa a linha de gol e o árbitro não vê - fazem parte da tradição desse esporte, utilizam-se de duas explicações para basear seu ponto de vista.

A primeira é dizer que a graça do futebol está nas discussões do dia seguinte, alimentadas pelas polêmicas do jogo. Com todo o respeito, esse tipo de argumento demonstra uma dificuldade crônica de avaliação daquilo que representa o futebol nos dias de hoje.

Há muito tempo essa modalidade deixou de ser um simples esporte. O futebol foi transformado em uma gigantesca indústria, que movimenta bilhões de qualquer moeda desse mundo e, por isso, deve ser administrado por pessoas sérias, competentes e profissionais.

Dentro desse contexto, dizer que um erro de arbitragem (como o que não considerou o gol de empate da Ucrânia diante da Inglaterra, na terça-feira, pela Eurocopa) é importante para "alimentar a discussão" do dia seguinte soa ofensivo à inteligência daqueles que gostam de futebol e tratam o assunto com seriedade.

Imagine a seguinte situação: Você, executivo de uma empresa multinacional que investe milhões para estampar sua marca na camisa de um grande clube, vê o time com o qual mantém a milionária parceria ficar fora de uma final por causa de um erro tosco do juiz.

Os acionistas ficam irritados com o retorno financeiro aquém do esperado, todo o planejamento de marketing vai pelo ralo justamente no momento mais importante da competição e você é aguardado no dia seguinte para dar explicações ao Conselho da empresa. Nessa hora, o que você diria para quem defende que tudo isso é bom para alimentar discussões? Impublicável.

Há também quem argumente que não é possível implantar recursos eletrônicos no futebol porque esse procedimento descaracterizaria o esporte, uma vez que o sistema estaria disponível apenas em centros mais desenvolvidos. Para eles, o futebol é o esporte mais popular do mundo pelo fato de ser praticado da mesma maneira nos quatro cantos do planeta. Será?

Só quem vive em um universo paralelo não percebe que, há muito tempo (mais precisamente desde o dia em que esse esporte foi criado), as condições de jogo diferem absurdamente de um lugar para outro. E nem é preciso formular teses revolucionárias para exemplificar isso. O simples exemplo do gramado ilustra o raciocínio. Ou alguém duvida que o relvado do Campeonato Brasileiro, Argentino, Peruano, Vietnamita ou Marroquino é diferente do usado na Liga dos Campeões?

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