Blatter recua para não cair na Fifa

Acordo com Ricardo Teixeira e João Havelange coloca um ponto final nas ameaças do presidente da entidade de abrir documentos contra os brasileiros

JAMIL CHADE / LAUSANNE , O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2011 | 03h05

Ameaças de revelações bombásticas, uma desculpa jurídica e, finalmente, um acordo para proteger a pele de todos. O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e o presidente de honra da Fifa, João Havelange, conseguem se blindar e frear a publicação de documentos revelando um esquema de corrupção que os envolvia.

A Fifa adiou indefinidamente qualquer ação contra ambos, enquanto o COI anunciou ontem que arquivou as investigações contra Havelange e garante que nunca mais abrirá um processo contra o brasileiro. Tanto Teixeira quanto Havelange saem, pelo menos desse capítulo da disputa pelo poder, sem uma acusação formal contra eles e impunes.

Ontem, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, estava prestes a soltar a documentação que mostraria o envolvimento de Havelange e Teixeira. Mas, na última hora, anunciou que havia desistido, alegando problemas legais.

Teixeira e Havelange, segundo a rede BBC, seriam as duas pessoas envolvidas em propinas pagas pela empresa ISL nos anos 90. O caso já foi encerrado na Justiça suíça, os dois envolvidos devolveram parte do dinheiro e um acordo estabeleceu que seus nomes não seriam divulgados.

Blatter, para punir seus adversários e tirar Teixeira da corrida para assumir o poder na Fifa em 2015, anunciou que iria tornar público os documentos e que isso ocorreria até o dia 17. Nos últimos dias, seus advogados apressaram os trabalhos com o objetivo de ter o sinal verde ontem.

Mas uma manobra dos cartolas brasileiros funcionou. Aliados de Teixeira e de Havelange alertaram que tinham em mãos ameaças que pesavam contra Blatter. O grupo estava pronto para lançar uma verdadeira bateria de acusações contra o presidente da Fifa que, segundo cartolas, teria a capacidade de obrigar a entidade a promover um impeachment de Blatter. O recado era claro: se Teixeira caísse, Blatter cairia junto.

Desculpa. O suíço entendeu que não poderia seguir com sua proposta. O problema é que apenas desistir de uma promessa de campanha não seria bom para sua imagem.

A forma encontrada foi culpar justamente o complexo sistema legal suíço. Havelange e Teixeira conseguiriam liminar, que mantem seus nomes sigilosos por pelo menos mais seis meses, e foi justamente isso que Joseph Blatter anunciou.

O problema é que o Tribunal de Zug, que havia julgado o caso, desmentiu ontem que qualquer novidade tenha ocorrido, confirmando que a questão legal foi apenas uma desculpa para impedir a publicação.

Blatter, publicamente, optou por declarações de força e prometeu continuar sua luta pela publicação da documentação, como forma de salvar sua imagem.

"A Fifa estava trabalhando de forma intensiva para poder publicar os documentos da ISL no próximo dia 17", explicou Blatter. "Era meu objetivo. Mas fui aconselhado que, por conta de uma objeção de uma terceira parte em relação a tal transparência, levaremos mais tempo para superar esse obstáculo legal."

Arquivado. No Comitê Olímpico Internacional (COI), o clima entre os cartolas ontem era também o de tentar abafar o caso e a blindagem dos brasileiros surtiu efeito. Havelange, ao renunciar de seu cargo de membro da entidade nos últimos 48 anos, conseguiu que o processo contra ele e que seria revelado na quinta-feira fosse abandonado.

O presidente do COI, Jacques Rogge, confirmou que arquivou o processo e informou que, na carta de renúncia, o brasileiro de fato justificava motivos de saúde, como o Estado havia revelado. "Havelange mandou uma carta dizendo que ele estava tendo problemas de saúde e que isso o impedia de viajar e ele considerou que, por sua idade e saúde, ele pararia suas viagens regulares", disse Rogge.

Perguntado sobre o processo e a motivação da renúncia poucos dias antes de que o mundo conhecesse o resultado da investigação do COI sobre Havelange, Rogge desconversou.

"Não vou comentar sobre o que é apenas especulação", disse. "Havelange já perdeu reuniões, na sessão de julho ele não estava na Fifa. "Para mim, a renúncia é baseada na saúde e idade", disse Rogge.

Sobre o processo, Rogge indica que nunca mais nada será aberto contra o brasileiro. "Havelange não será mais membro do COI e investigações só podem ser abertas contra membros da organização", explicou.

João Havelange sai assim sem punição e ainda com elogios rasgados em relação a ele. Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB, fugia da imprensa estrangeira ontem no saguão do COI em Lausanne, tentando evitar falar do assunto.

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