Bobão não deve ser levado a sério

Nas aguerridas peladas que disputávamos no campinho de terra encravado nas esquinas das ruas General Flores e Sólon, no Bom Retiro, sempre tinha uns sujeitos chatos, que se divertiam em arrumar encrenca. O negócio deles era bola de menos e aporrinhação demais. Por isso, muitos clássicos da garotada terminavam com um punhado de olhos roxos, arranhões no joelho, calças rasgadas.Um dos meninos mais ranhetas era o Rui Tatu, que morava pelos lados da rua Amazonas e teimava em jogar com a gente. Só entrava quando faltava alguém. Cabeça quente, mal-educado, apelava pra ignorância, chutava canelas; xingava Deus e o mundo. Não se limitava aos palavrões de praxe, que naquela época ainda chocavam ouvidos sensíveis. O Tatu só era habilidoso para ofender raça, credo, cor - pratos cheios num bairro então predominantemente habitado por judeus e italianos.Levou muitos tapas por isso. Até que um dia decidimos não mais dar bola para suas provocações. Decretamos que era um bobão irrecuperável e o que falava não se levava a sério. Sentença dura. Tatu sentiu, se afastou, se enfiou em algum buraco da vida e não sei que rumo tomou. O Rui saiu da toca da minha memória na madrugada de ontem, ao acompanhar a confusão após Cruzeiro x Grêmio. Eu o revi no Maxi López por associação de ideias. O argentino agiu como o bobão da rua ao xingar Elicarlos de macaco. Foi grosseiro, inoportuno, indelicado. Mereceu o chega-pra-lá que o próprio Elicarlos e o Vagner lhe deram. Achei que o entrevero terminaria ali, no empurra-empurra, como ocorre na maioria das vezes em besteiras dentro de campo.No entanto, ao ver o rumo que o incidente ocorrido no primeiro tempo do duelo no Mineirão tomava, agora com a presença de polícia, delegado, demais autoridades e ameaça de prisão, fiquei a cismar - cheio de dúvidas. Antes de mais nada, sou solidário com quem se sente atingido por racismo, xenofobia e idiotices do gênero. Só quem passou por situações constrangedoras tem como avaliar até onde se sente agredido. Nunca tive problemas por causa de cor de pele em minha terra, mas cansei de enfrentar filas e passar por revistas minuciosas em aeroportos por conta do passaporte brasileiro. O mesmo Antero se transformou em ser humano de Primeiro Mundo ao exibir para autoridades de imigração o documento cor de vinho da Comunidade Europeia. Se bem que, cá entre nós, esse tipo de aborrecimento nem vale como exemplo, porque me refiro a uma situação de privilégio, de quem pode viajar para o exterior - a trabalho ou a passeio, pouco importa. Não me atrevo, portanto, a classificar de banal a indignação de Elicarlos e seu desejo de usar de recursos legais por se sentir menosprezado em casa. Mas será que a enxurrada de ofensas que jogadores trocam durante uma partida de futebol tem valor real? Ou tudo não passa de uma forma - tola, eu sei - de desestabilizar o rival? Estratégia que se esvai assim que o árbitro dá a assoprada final no apito e a turma troca camisas.Maxi López não deveria ser encarado como um tolo, um bobão? Levá-lo a sério não lhe dá mais projeção? São apenas reflexões, pois cabe a Elicarlos medir a intensidade de orgulho ferido. De qualquer forma, espero que estenda essa tomada de consciência para outras situações da vida, já que no cotidiano são inúmeras - e, acredito, bem mais graves - as manifestações de intolerância racial que já deva ter enfrentado.

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