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Antero Greco
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Bola nas costas

Falar mal de governo é tradição nacional de longa data. Se bobear, se descobre que alguém criticou o Pedro Álvares de Cabral na hora do desembarque. "Ih, olha o chefe querendo aparecer", deve ter falado um marujo que andava cheio daquela conversa mole de calmaria pra despistar espanhol de olho nas terras da Coroa portuguesa. Agora, meter bronca no Mundial é esporte mais recente, e temporário. É moderninho falar "Imagina na Copa" diante de qualquer problema cotidiano. Fechar a cara também ajuda a compor o tipo indignado.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2014 | 02h03

Quem sabe, Ronaldo não quis perder a onda e embarcou nessa de se mostrar alarmado com atrasos nas obras para a competição que começa dentro de mais alguns dias? Só assim para entender as críticas que fez, em entrevista para agência noticiosa internacional, a respeito da burocracia brasileira e da sensação de "vergonha" que tem, diante de seus pares no plano internacional, com o que ocorre aqui.

O desabafo do ex-jogador correu mundo, ganhou manchetes por aqui e se junta ao coro interminável dos que não aguentam mais os improvisos. Para desatentos pode representar o desesperado grito de alerta de um nome importante do país. A tal cereja no bolo de quem aposta em fiasco verde amarelo de proporções estratosféricas.

Mas, calma aí: há uma série de questões a levantar. Ronaldo não faz parte do COL, o Comitê Organizador Local da Copa? Ele não foi aclamado como "o novo homem forte" de nosso Mundial no início de 2012? Não despontou na época como o personagem ilibado que limparia a barra do ex da CBF e de outros menos votados envolvidos na tarefa de preparar o evento? Não apareceu, nesse tempo todo, em cerimônias oficiais ligadas à Copa? Não atuou numa infinidade de campanhas publicitárias para vender a festa da bola? E não foi autor de célebre frase de que uma Copa não se faz com hospitais?

A que se deve o fenomenal surto de contundência e decepção em cima da hora? Há quem trace paralelo com o recente apoio a um dos candidatos à presidência da República. Espero que não, embora, como cidadão livre, tenha direito de manifestar preferência por quem quiser, sem patrulhamento. Imagina-se que carregou nas tintas para passar imagem crítica e criteriosa para o público externo. Há quem note só outra reação contraditória de alguém que, anos atrás, pedia distância do ex da CBF, por não achá-lo confiável, e depois dele se aproximou ao primeiro aceno.

Não sei se alguma hipótese seja correta e corresponda à realidade. Mas seria gesto de grandeza, desprendimento, coragem e independência parar de desfilar ao lado de Marin, Blatter, Valcke, do ministro Rebelo e da presidente Dilma Rousseff e sair de cena. Daí, o "basta!" soaria mais sincero, embora atrasado, e menos como bola nas costas da turma.

Tourada em Lisboa. Meu amigo, foi bacana a final espanhola da Copa dos Campeões da Europa, no Estádio da Luz. Tecnicamente, não chegou a ser um duelo antológico. Houve decisões melhores. Valeu pela intensidade da luta entre Atlético e Real, dois eternos rivais de Madri, pela emoção, pela reviravolta, pelo placar definitivo. O Real empatou nos acréscimos, o que já parecia fora de cogitação. Depois, fez 2 a 1 na metade do segundo tempo da prorrogação. E ainda sobraram minutos adicionais para fazer outros dois!

Que doideira. Os 4 a 1 doeram para o Atlético, mas foram consequência da postura de ambos os times. O Real foi pra cima, o Atlético a todo custo quis segurar o 1 a 0 obtido na primeira etapa do período regulamentar; entrou pelo cano. Pouquinho antes do apito derradeiro, houve até ensaio de tumulto geral, o que deu calor humano e um toque sul-americano ao rígido ritual europeu.

E por aqui... O calendário é tão maluco que, na terra do Mundial, continua a jogar-se o Brasileiro como se nada alterasse a rotina. Só quem paga o pato são os clubes, obrigados a perambular por falta de estádios.

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