Alberto Estevez/EFE
Alberto Estevez/EFE

Bolt: 'Quero ser o maior de todos os tempos'

Recordista mundial dos 100 e 200 metros não pretende cravar novas marcas e sim ganhar o máximo de torneios

Jamil Chade , ENVIADO ESPECIAL / ZURIQUE, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2012 | 03h06

O homem mais rápido do mundo já não se contenta em ser lembrado apenas por esse feito. Usain Bolt começa a montar um plano para estar pronto para vencer pela terceira vez consecutiva os 100 metros na Olimpíada do Rio. Para fazer isso com 29 anos em 2016 admite que vai mudar radicalmente a carreira, sua forma de competir e mesmo abandonar, se necessário, a defesa do título de homem mais veloz do planeta. "Quero ser lembrado como o maior de todos os tempos no meu esporte. Esse é o meu objetivo, não os recordes."

"Se eu fosse um jogador de futebol, gostaria de ter sido Pelé", declarou ao Estado, que participou de um encontro entre Bolt e um grupo de jornalistas ontem em Zurique, às vésperas de sua prova de hoje na última etapa da Liga Diamante.

Depois de vencer em 2008 e 2012, além de ser recordista mundial dos 100 e 200 metros, Bolt deixou claro que vai se poupar nos próximos anos, não colocará mais como meta a redução de seus tempos e vai "administrar seu corpo" para se manter em um nível elevado pelos próximos quatro anos.

O jamaicano não disfarçava que está cansado e diz "contar os minutos para a temporada acabar". Mas, acima de tudo, admite que sua carreira vive uma encruzilhada e chegou o momento de tomar decisões importantes. "Certamente quero estar no Rio e defender meus títulos lá. Isso é muito importante", disse. "Mas vamos agora planejar ano a ano para que isso seja possível", explicou. "Não sou mais tão jovem e as coisas vão ficando cada vez mais difíceis."

Novos ouros. Sua ambição é superar a marca de Carl Lewis, que conseguiu nove medalhas de ouro e uma de prata em olimpíadas. Bolt tem seis ouros. Para ultrapassar o americano, que já o acusou de doping, precisaria vencer três provas no Rio, como fez em Londres, e ainda optar por uma nova.

"No final da atual temporada, terei uma reunião com meu treinador e vamos decidir o que fazer", disse. Ele não esconde que quer tentar o salto em distância. "Mas não sei se meu técnico deixaria." Glen Mills vem insistindo para que ele passe para os 400 metros, algo que Bolt resiste. "Será uma conversa importante e decisiva", disse o atleta.

Bolt, que fez tudo para se tornar o homem mais rápido do mundo, agora já muda de tom. "Minha meta é ganhar campeonatos. Não o de melhorar meus próprios recordes. Não quero um dia estar sentado no sofá em minha casa e receber uma ligação dizendo: 'Você deixou de ser o homem mais rápido do mundo'. Quero vencer títulos e isso nunca ninguém vai tirar de mim", afirmou. "Além disso, para ser sincero, quando você já tem recordes, é sempre difícil focar o trabalho em reduzir sua marca", completou.

O jamaicano não tem ilusões e sabe que, mais cedo ou mais tarde, alguém baterá seu recorde. "A nova geração na Jamaica vai nos substituir à altura. Claro que poderão correr mais rápido. Mas, para mim, não é mais uma questão do tempo que faço. É ganhar e entrar para a história. Qualquer um pode bater um recorde. Mas nem todos podem ter títulos e mais títulos", insistiu.

Bolt confessou que poderia ter batido pelo menos o recorde dos 100 metros em Londres, mas não manteve sua velocidade até o final. "Meu treinador me chamou de amador por meu comportamento", reconheceu.

Sacrifícios. Para ele, repetir no Rio em 2016 as medalhas de Pequim em 2008 e Londres em 2012 exigirá sacrifícios em outras áreas e até mesmo escolher em quais provas participar a partir de 2013. "Não se pode exigir de seu corpo um rendimento máximo todos os anos. Na idade em que estou entrando isso significa que haverá uma rápida deterioração (do corpo) e eu, ao contrário de muitos, quero durar o máximo tempo possível nas pistas."

Considerado como o novo ícone do esporte, Bolt já garantiu com suas medalhas pelo menos um aspecto fundamental: a explosão de patrocínios até 2016. Por ano, já recebe US$ 20 milhões (cerca de R$ 40 milhões) de empresas como a Puma, Visa e P&G. O valor é vinte vezes superior à média dos demais atletas e já o coloca na lista dos esportistas mais bem pagos do planeta. Hoje, dá palestras para executivos e é constantemente assediado por empresas.

Ainda neste ano, o atleta visitará o Brasil para uma série de eventos promocionais e para começar já a montar sua imagem relacionada aos Jogos do Rio de 2016. O corredor deve participar de um jogo de futebol, uma de suas paixões.

Ao ser informado pelo Estado que Luis Fabiano imitou seu gesto no jogo entre São Paulo e Corinthians no fim de semana, Bolt não deixou de destacar que justamente esse é o impacto que quer ter. "Quando vejo que outros me copiam, sinto-me realizado. Isso significa acima de tudo que há um reconhecimento em todo o mundo", disse.

"O que ninguém vê é que, para chegar a isso, trabalho duro mesmo. Ninguém vê a quantidade de vezes que vomitamos do esforço que fazemos." Bolt insistiu que sua juventude pouco cômoda na pobre Jamaica o ensinou a trabalhar para atingir seus objetivos. "O que me fez tão forte mentalmente e psicologicamente foi tudo o que tive de enfrentar na minha juventude. Posso dizer claramente que não há mais surpresas para mim. Estou preparado para todos os desafios."

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