Bombonera assusta os rivais com sua torcida fanática pelo Boca Juniors

Além do frenético barulho de seus aficionados, estádio é chamado de a 'catedral' do futebol na Argentina

ARIEL PALACIOS - Correspondente, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h06

BUENOS AIRES - Seis vezes campeão da Copa Libertadores, o Boca Juniors conta com a sua fanática torcida para buscar mais um troféu na competição sul-americana. E, novamente, os torcedores xeneizes não poderão celebrar a conquista no famoso estádio La Bombonera. Somente, em 1978, contra o Deportivo Cali, da Colômbia, e 2001, contra o Cruz Azul mexicano, a equipe festejou em sua casa.

Nascido no bairro de La Boca, um setor da capital argentina originalmente povoado por imigrantes italianos, o Boca Juniors, que completou um século em 2005, é o time que mais mística acumula na Argentina. Por um lado, está a lenda da suposta composição operária de seus torcedores. Por outro, as características peculiares de seu templo: o estádio de La Bombonera (a caixa de bombons). E, de quebra, o fanatismo de seus torcedores.

"Filhos de Itália", "Defensor da Boca", "Estrela da Itália", "Boca Juniors". Esses eram os nomes que cinco rapazes, filhos de imigrantes italianos de Gênova, debatiam para batizar o time. A discussão transcorreu em um perdido dia do distante ano de 1905. Finalmente optaram por Boca Juniors.

Com o nome escolhido, faltava a definição cromática. A primeira camiseta foi cor-de-rosa. Mas, diante de uma saraivada de gozações e de uma derrota por 3 a 1 para um time já extinto do bairro de Almagro, os fundadores decidiram que a cor rosa, além de ser um pouco feminina, não trazia sorte.

Com dúvidas, o quinteto genovês-argentino decidiu que as cores seriam as mesmas da bandeira do primeiro navio que entrasse no porto. A embarcação que chegou minutos depois ostentava as cores do estandarte sueco: azul e amarela.

Seus torcedores definem-se como "boquenses" ou "xeneizes" (pelas origens genovesas do bairro). A denominação depreciativa "bosteros", lançada décadas atrás pelos rivais do River Plate, indicava que os torcedores do Boca eram meros carregadores de cocô de cavalo.

Para deleite dos torcedores masculinos heterossexuais, o Boca lançou na virada do século a moda das cheerleaders no campo. Ou seja, curvilíneas muchachas, vestidas com ajustados e minimalistas uniformes azul-dourado, estimulam os jogadores a dar tudo de si no gramado.

Comparar o Boca (ou qualquer outro time) categoricamente com um clube brasileiro pode ser algo forçado. Se bem que o Boca possui origens italianas, como o Palmeiras, e tem uma das maiores e mais agressivas torcidas da cidade, tal como o Corinthians em São Paulo. Seus vínculos com o porto de Buenos Aires são indeléveis. Algo que ocorre, por exemplo, com o Santos. Mas o frenesi da rivalidade que possui com o River Plate é comparável a clássicos como Fla-Flu ou Gre-Nal. Quem é do River só pensa na derrota do Boca e vice-versa. O restante é inexistente no imaginário coletivo desses dois times.

Um detalhe importante: quem pensa que a Boca ainda é um bairro italiano está com a mente ancorada no passado distante. Os italianos já foram embora dali. Nas ruas de La Boca os italianos de verdade escasseiam.

As cantinas apresentam uma cozinha supostamente de autoria de uma hipotética nonna. Mas esta nonna, na realidade, é uma abuela, também avó, só que de sonoro sotaque espanhol.

O estádio do Boca recorda uma caixa redonda de bombons, já que suas paredes íngremes fazem com que o espectador que está sentado na última tribuna veja o campo como se fosse mergulhar nele. Boquenses e não boquenses sustentam que La Bombonera "vibra" junto com seus torcedores, especialmente quando a torcida grita os cânticos de respaldo, famosos por serem uma antologia ímpar de palavras de baixo calão, com abundantes referências à mãe de outrem.

Existem estádios maiores no país. No entanto, pela sua mística, La Bombonera é considerada a catedral do futebol na Argentina.

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