Boxe sofre com a falta de carisma de seus pugilistas

Campeão mundial dos peso pesados, Klitschko, não tem força para reeguer sua categoria

NEW YORK TIMES

03 de março de 2008 | 16h47

O boxe sobreviverá à vitória sem graça do ucraniano Wladimir Klitschko sobre o russo Sultan Ibragimov no sábado retrasado. Mas a categoria dos peso pesados patina na falta de carisma de seu campeão. Alguém imagina uma nova geração de fãs do esporte surgir vendo Klitschko disparando uma quantidade infinita de jabs de maneira tão mecânica que parece precisar de óleo para usar seu golpe de direita? Será que os fãs - especialmente aqueles que não estão tão familiarizados com a história do boxe - trocarão o esporte por alguma categoria de 'vale tudo' ou luta livre? "É uma situação que pode sim tornar-se realidade", afirma Jim Lampley do canal televisivo HBO, que transmite as lutas de boxe nos Estados Unidos. "Há mais emoção em ver Floyd Mayweather Jr., campeão mundial do médios, anunciar sua intenção de lutar na Wrestlemania XXIV (luta livre) no dia 30 de março, do que ver a vitória esmagadora do Klitschko. Mayweather entende que é necessário ter entretenimento, e interpreta o vilão perfeito. "Eu tenho dinheiro. Eu tenho mansões", disse Mayweather, vestido com sua parafernália do New York Yankees (time de beisebol), enquanto seu oponente estava vestido com um terno social. "Todas as garotas me amam. Eu comando o show. Você saca?", comentou, em tom irônico.Agora, ninguém pode esperar que um lutador peso pesado, da Ucrânia, venha a agir ou até lutar com um peso médio. Mesmo assim, o melhor boxeador que esteve presente no evento de sábado à noite da HBO já está morto: Joe Louis, que foi alvo de um documentário que antecedeu a luta entre Klitschko e Ibragimov. A inércia vista do Madison Square Garden (em Nova York) é um insulto para a memória de Louis. É um insulto para a memória do nocaute de Hasim Rahman sobre Lennox Lewis. Veja bem: é até um insulto para a mágica dos dois nocautes de "Duas toneladas" Tony Galento, no segundo assalto, sobre Nathan Mann, que completará 70 anos dentro de três meses.Lampley e os analistas da HBO, Lewis e Max Kellerman, mudaram de assunto, depois de um certo tempo, e começaram a criticar a estratégia de Klitschko em não utilizar a direita. Durante os sete primeiros assaltos, ele deu 162 socos, sendo que apenas 22 não foram jabs de esquerda. A estratégia manteve Ibragimov longe de combate, mas garantiu a todos uma luta sem emoção alguma, apesar da insistência de seu técnico, Emanuel Steward, em ser mais agressivo. "Isto [a luta] não deveria ter ido a 12 assaltos", disse o treinador, que também é um comentarista da HBO em suas horas vagas. "Ganhar esta luta por decisão não foi uma boa. Deveríamos ter tentado o nocaute", comentou Lampley, após a luta.A preocupação dos amantes do boxe está no crescimento da UFC (Ultimate Fighting Championship), que é o vale-tudo norte-americano, que atrai lutadores de todos os lugares do planeta, assim como torcedores. Para Lampley, a UFC não irá arruinar com o boxe, mas pode atrapalhar a busca do boxe por novos adeptos. "Eu não acho que um tirará fãs do outro", disse o comentarista, que continuou. "Fãs de vale-tudo tendem a ser mais jovens e rebeldes, algo não muito característicos dos fãs do boxe, mas certamente a nova categoria colocou um 'prego' na habilidade do boxe em conquistar novos seguidores. Digamos que a comparação é similar a ser um esquiador e um snowboarder."Seja qual for a opinião dos especialistas, o boxe teve uma severa queda - como se um meteorito tivesse destruído o interesse, o entretenimento e os boxeadores talentosos. O último evento de pay-per-view da HBO, que foi a luta entre os peso pesados Rahman e Oleg Maskaev conseguiu apenas 50 mil interessados, em agosto de 2006. Klitschko sempre lutou em eventos de pay-per-view da HBO, o que é um sinal que os promotores nunca olharam para o ucraniano como sendo um talento carismático, que atrairia a atenção do público. Por enquanto, a HBO está vivendo bem com sua "dieta restrita" de lutas que não sejam de peso pesados. No ano passado, 4,8 milhões de telespectadores compraram eventos da HBO no pay-per-view, sendo que o recorde foi para a luta entre Oscar De La Hoya e Mayweather, que atraiu 2,4 milhões de pessoas.

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