Brasil na cabeça

Se tem coisa arriscada é prognóstico em futebol. Antecipar que vai ocorrer isso ou aquilo em esporte tão imprevisível é o equivalente a topar com casca de banana lisinha, insidiosa, esparramada no meio do caminho, à espreita de cronista incauto para fazê-lo escorregar e quebrar a cara. Como dei muita bola fora (mais dentro, ora, ora) nesta rotina de falar a respeito de joguinho de bola, não me causa constrangimento cravar desde já que a Taça Libertadores de 2011 ficará em território nacional, repeteco deste ano que embicou para as semanas finais.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2010 | 00h00

Não estou a resvalar para atitude patrioteira, nem tenho vocação para adivinho - ou bidu, como se dizia na época em que o rapazote só podia usar calça comprida lá pelos 12 ou 13 anos. Quem não tem time na competição continental não torça o nariz para esta afirmação. Trata-se de projeção, com base no que mostraram as equipes de cá e de lá nesta temporada e o que prometem para a próxima.

Um sobrevoo por esta bela região do mundo talvez seja suficiente para mostrar que nossos vizinhos não vivem momento extraordinário. Os argentinos, rivais mais temíveis e respeitáveis pela história do torneio, entrarão desfalcados de Boca Juniors e River Plate, que têm predileção especial em derrubar brasileiros. Pontos a menos para eles. A contrapartida fica para a confirmação do Estudiantes, campeão de 2009 e neste ano defenestrado pelo Inter nas quartas de final. Não é galinha morta, longe disso. Também não é nada de anormal.

Outro representante de peso dos hermanos é o Independiente. Esse pode botar banca, porque entende de Libertadores (7 títulos jamais se desprezam), homenageada até no rebatizado nome do estádio, antes conhecido como La Doble Visera. Depois de muito tempo de hibernação, ressurgiu com a conquista da Sul-Americana. Quem acompanhou a final com o Goiás, encerrada na madrugada de ontem, viu uma equipe animada, aplicada e vulnerável.

O Uruguai se apresenta com os tradicionais Nacional e Peñarol, antes bichos papões e agora doce lembrança do passado. O Equador aposta na LDU, de recente história de sucesso (o Fluminense que o diga...) e instável. Os mexicanos são força ascendente e tiveram o Chivas na final com o Inter. Não custa ficar de olho neles. Os demais países tendem a participar com coadjuvantes.

E a tropa brasileira? É de elite? É. Os quatro já garantidos - Santos, Flu, Cruzeiro e Inter - são confiáveis. Os dois remetidos para a etapa preliminar - Corinthians e Grêmio - também têm peso e só emperram se zebras, lhamas, jaguatiricas e outros bichos ficarem à solta. Em situação normal, comporão o sexteto verde e amarelo na Libertadores.

O pioneiro Santos (campeão em 62 e 63) dá sinais de que pretende desempenhar papel bonito ao chamar de volta Elano e ao manter Neymar. De quebra, contará com o retorno de Ganso, o maestro nas conquistas deste ano. Falta-lhe centroavante de peso - Keirrison não emplacou - e, para tanto, conversa com Ricardo Oliveira.

O Inter (2006 e 2010) tem elenco de qualidade e o sucesso passa pelo desempenho e permanência de Renan, Sóbis, D"Alessandro, Alecsandro, Guiñazú, Giuliano. Não é pretensão imaginar a revalidação do título. O Fluminense tem equipe equilibrada e confiante. Só não pode desfazer-se de gente como Mariano, Carlinhos, Deco, Fred, Gum, Leandro Eusébio. E sobretudo de Conca. Dá para compensar a frustração do vice de 2008.

O Cruzeiro festejou em 1976 e em 1997, teve o grito entalado no ano passado e chega amadurecido para 2011. O Grêmio também deu a volta olímpica duas vezes (1983 e 1995), ganhou impulso com a excelente campanha do returno do Brasileiro e vai incomodar. Assim como o Corinthians, que persegue a taça com obsessão. Sem a pressão adicional do ano do centenário, pode enfim realizar seu sonho. Precisa repor as baixas (William, Elias) e ficar atento ao envelhecimento de Ronaldo e Roberto Carlos.

A Libertadores está no jeito para o Brasil. Aposto uma pizza e um refrigerante. Ou melhor: duas pizzas.

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