Brasil planeja barrar quenianos

Por causa das constantes vitórias dos africanos, CBAt quer limitar número de estrangeiros nas provas de rua

Amanda Romanelli, O Estadao de S.Paulo

29 de dezembro de 2008 | 00h00

A invasão queniana nas corridas de rua de todo o Brasil pode estar com os dias contados. Atendendo a reclamações de atletas, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) deve aprovar, na primeira Assembléia Geral de 2009, marcada para 24 de janeiro, restrições para a participação de estrangeiros nas provas do País.A questão refere-se, basicamente, aos corredores do Quênia. O país africano é, para as provas de fundo, o que o Brasil é para o futebol. Revela muitos talentos que não encontram, no próprio país, a possibilidade de altos ganhos financeiros. Vão competir no exterior. Além da Europa e dos EUA, o Brasil é destino interessante. Com um circuito de corridas de rua movimentado, há provas com premiação em dinheiro praticamente a cada fim de semana. E é justamente esse o problema apontado pelos atletas brasileiros: eles estão perdendo sua principal fonte de renda."Os corredores brasileiros reclamam que não têm conseguido ganhar os prêmios e muitos contam somente com esses recursos para manterem seus treinos", afirma Martinho Nobre dos Santos, secretário-geral da CBAt. "A presença dos quenianos ainda não tem causado impacto ao atletismo brasileiro. Grande parte dos que competem aqui não tem resultados técnicos fantásticos. Mas eles tiram prêmios dos brasileiros e isto pode ser um desestímulo aos nossos corredores."Para Henrique Viana, técnico de vários fundistas, incluindo o campeão pan-americano Franck Caldeira, é questão de tempo para que esse impacto seja sentido. "Aonde estão os corredores da Itália, de Portugal, do México?", questiona. "Esses países não formam mais bons atletas porque lá ocorreu, já há algum tempo, o que ocorre agora no Brasil. Só quenianos ganham as provas. Os prêmios estão caindo, porque patrocinadores e torcedores estão perdendo o interesse." De acordo com a CBAt, países europeus já restringem a participação estrangeira, bem como EUA e África do Sul.Tanto a CBAt quanto técnicos e atletas brasileiros querem afastar a hipótese de um discurso xenófobo. A presença de corredores estrangeiros de bom nível técnico é importante, afirmam. Basta lembrar as emocionantes participações do ex-recordista mundial da maratona, Paul Tergat, nas corridas de São Silvestre. Mas, para a entidade que rege o atletismo nacional, o comportamento de alguns técnicos e agentes causou o conflito de interesses. "É importante ressaltar que muitos quenianos vêm ao Brasil para permanecer um período, treinando com técnicos brasileiros, que acabam ganhando parte nos prêmios", diz Martinho Nobre dos Santos. "Este tipo de comportamento está desvirtuando a participação eventual ou a convite de organizadores de corridas, o que é normal", comenta o dirigente. A CBAt informa que só aceita atletas registrados na Federação de origem e mantém uma lista de corredores estrangeiros habilitados a competir no País. Hoje, são 45, sendo 41 deles quenianos. Mas não diz se investiga a situação legal de cada um deles. "Quando começarem a exigir seriedade, saber qual o modo de viver desses atletas e como os técnicos trabalham, haverá uma diminuição de quenianos no Brasil", garante o treinador Moacir Marconi, precursor no intercâmbio entre técnicos brasileiros e corredores quenianos.A equipe de Marconi, há 12 anos na cidade de Nova Santa Bárbara, no Paraná, é patrocinada por umas das principais fornecedoras de materiais esportivos do atletismo, a Fila. O técnico diz ter registro na Federação Queniana e é contato, no Brasil, de um dos principais agentes de corredores daquele país, o italiano Federico Rosa. "Eu sempre vou trazer gente forte para as provas brasileiras", garante Marconi, responsável pela vinda dos principais atletas estrangeiros da Corrida de São Silvestre, como o queniano Evans Cheruiyot, campeão da Maratona de Chicago. Outras duas equipes trabalham com quenianos. Os ex-corredores Luiz Antonio dos Santos e Jorge Luís da Silva estão com um grupo em Campos do Jordão (SP) - o Estado tentou entrevistá-los, mas eles não quiseram dar declarações até que a norma da CBAt entre em vigor. Albenis Souza, o primeiro técnico de Marilson Gomes dos Santos, trabalha com outra equipe em Brasília. Marconi diz não ter medo da concorrência, mas reclama. "Não quero ser vítima. Faço um trabalho sério, com alto investimento", afirma. Para o treinador, a situação chegou ao limite quando o corredor queniano Barnabas Kipkoech Kitkwony, de 28 anos, teve morte súbita durante a Corrida dos Carteiros, em Goiânia (GO), no dia 30 de novembro. Ele treinava com Albenis Souza. "Quando uma coisa desse tipo acontece, não é bom para o trabalho de ninguém."O QUE ELES DISSERAMMartinho Nobre dos SantosSecretário-geral da CBAt"Os corredores brasileiros reclamam que não têm conseguido ganhar os prêmios e muitos contam somente com esses recursos para manter seus treinos"Moacir MarconiTreinador"Quando começarem a exigir seriedade, haverá diminuição de quenianos no Brasil"

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