Tasso Marcelo/Estadão
Tasso Marcelo/Estadão

Brasil sofre para combater o doping

A maioria dos atletas de alto rendimento no País continua sem se submeter aos testes

LEONARDO MAIA,

22 de setembro de 2013 | 08h30

RIO - A guerra contra o doping é como briga de gato e rato. E os ratos estão vencendo. Na luta para limpar o esporte, os mecanismos de controle são ineficazes e cheios de brechas que permitem aos atletas trapaceiros escaparem de punição. Tal constatação é feita por dois relatórios, um da Agência Mundial Antidoping (AMA/Wada), outro da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), aos quais o Estado teve acesso.

Se o combate ao doping é um problema mundial, no Brasil o cenário é ainda mais grave. Um censo com os 7 mil atletas brasileiros de alto rendimento, beneficiados com o Bolsa Atleta, realizado pela ABCD, traz dados alarmantes. Em um questionário sobre o tema, 83% responderam que jamais foram submetidos a qualquer tipo de exame antidoping.

Apenas 11% afirmaram que foram alvo de controle em períodos fora de competição, quando a probabilidade de os desportistas estarem utilizando substâncias ilícitas é maior. Outra questão é a falta de informação e educação. Assustadores 92% dos atletas disseram que não sabem da existência de uma lista de substâncias e métodos proibidos.

"É um problema grave que temos que atacar imediatamente", diz Marco Aurelio Klein, diretor executivo da ABCD, órgão independente ligado ao Ministério do Esporte criado em fins de 2011 para implementar um protocolo unificado para o País. A ABCD começou a operar apenas este ano e sua criação foi um compromisso brasileiro com o Comitê Olímpico Internacional (COI), relativo aos Jogos do Rio 2016, para a implantação de uma agência nacional que centralizasse o antidoping.

Mais do que o baixo número de pessoas testadas, a qualidade dos testes é o principal problema. As confederações e federações muitas vezes realizam exames apenas para apresentar números, sem que eles estejam efetivamente vasculhando as substâncias certas.

"Não adianta você testar um atleta de maratona ou ciclismo, provas de resistência, e não verificar a presença de EPO (Eritropoietina) no organismo", aponta Eduardo De Rose, brasileiro membro-fundador da Wada e médico do Comitê Olímpico Brasileiro. "Mais do que a quantidade, temos que melhorar a qualidade do controle antidopagem."

A questão é financeira. As confederações não têm verba para arcar com os altos custos dos exames. Dessa forma, muitas vezes o controle é frouxo. Nesse sentido, todo o controle de doping no Brasil será subsidiado pela ABCD a partir do ano que vem.

O órgão já tem orçamento aprovado de R$ 12,2 milhões, dos quais R$ 8 milhões serão utilizados com a realização de testes e na melhoria do sistema de inteligência. "Pela primeira vez o governo brasileiro elabora uma política de combate ao doping. Com os custos sob nossa responsabilidade, a quantidade e qualidade dos testes será muito maior", argumenta Klein.

Um relatório da Wada, apresentado em abril deste ano, também traz dados interessantes. Desde a criação da agência, em 1999, o número de testes aumentou de 150 mil/ano para 250 mil/ano. Apesar disso, a quantidade de casos positivos não acompanhou proporcionalmente tal crescimento.

Na verdade, desde 1985, quando o controle antidoping era muito rústico, as amostras adversas mantêm-se no patamar de cerca de 1% do total de análises feitas. 'Há evidências de que deveriam ser uns 5% de casos positivos. Estamos deixando escapar quatro pontos porcentuais", diz De Rose.

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