Carl de Souza / AFP
Carl de Souza / AFP

Brasil tem sua primeira fábrica de tacos e vive 'boom' de críquete feminino 

Poços de Caldas, em Minas Gerais, se torna capital do jogo criado na Inglaterra no país do futebol

Joshua Howat Berger / AFP, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2022 | 10h00

Em um pátio cimentado de uma comunidade humilde em Poços de Caldas, Minas Gerais, um grupo de crianças corre a toda velocidade atrás de uma bola diferente. Mas no lugar do onipresente futebol, o esporte nacional, o jogo é de críquete. A cidade mineira de 170.000 habitantes virou a capital deste jogo também criado na terra da rainha.

Contrariando todos os prognósticos, o Brasil se tornou uma potência emergente do críquete, especialmente por sua seleção, que fechou contratos em 2020, tornando-se o primeiro país a profissionalizar as mulheres antes dos homens.

A maioria de seus jogadores aprendeu a jogar em um dos 63 programas para jovens da organização Cricket Brasil, cujo presidente é o ex-jogador profissional Matt Featherstone, um inglês casado com uma brasileira que chegou ao país há 20 anos. "Minha mulher acha que estou louco" por ensinar críquete aos brasileiros, brinca Featherstone, de 51 anos, ainda um atleta de entusiasmo contagiante.

Seu carisma transformou Poços de Caldas, um município cafeteiro, no que o prefeito Sérgio Azevedo tem orgulho de chamar de "a única cidade no Brasil onde os jovens jogam mais críquete do que futebol".

NO RITMO DO SAMBA

Featherstone tentou em um primeiro momento transmitir seu amor pelo críquete nas escolas privadas, mas ali concorria com o rúgbi, o hóquei, a vela e "tudo o que você puder imaginar", conta. Nos bairros carentes, ao contrário, onde a opção é "futebol ou futebol", descobriu famílias dispostas a acolher novos esportes. Diferentemente da Inglaterra, onde o críquete geralmente é um esporte masculino da alta sociedade, "aqui temos uma folha em branco para fazer o que quisermos", diz.

Roberta Moretti Avery, capitã do time feminino, lembra do momento em que descobriu o críquete na TV. "Eu não entendia as regras, só vi que havia um monte de gente vestida de branco, e que durava muito tempo", lembra Avery, de 36 anos. Mas ao mesmo tempo, a fez lembrar um jogo de rua brasileiro conhecido como "bats" ou "taco", criado no México e muito difundido na América Latina. A história da modalidade no Brasil conta que os escravos brasileiros inventaram esse jogo com paus de vassoura e garrafas, depois de ver os britânicos que chegaram ao Brasil no século 19 para construir ferrovias jogando críquete.

O entusiasmo e a abertura do Cricket Brasil acabaram convencendo Avery. "A forma que foi implementado aqui para os brasileiros foi muito bacana, foi de uma forma muito divertida", diz Avery. Durante os treinos, a equipe brasileira toca funk e samba antes das partidas e prefere as noitadas ao chá com sanduíche de pepino.

EXPANDINDO HORIZONTES

Graças aos projetos lançados em 2009, Poços de Caldas tem mais de 5.000 jogadores. O Cricket Brasil quer chegar a 30.000 e chegar a outras cidades. Algumas jogadoras ganharam renome internacional, como Laura Cardoso que, com apenas 16 anos, virou manchete ao eliminar cinco adversárias nos últimos seis lançamentos contra o Canadá, durante as classificações para o Mundial. Uma façanha nunca alcançada em um torneio internacional feminino T20.

Recém-chegada de uma experiência profissional em Dubai, Cardoso poderia se tornar uma das melhores do mundo, diz Featherstone. Mas a jovem prodígio, agora com 17 anos, vai com calma. "O que eu fiz por merecer estar aqui?", diz, entre risos, perto do centro de treinamento da seleção, doado pelo governo municipal.

O combinado feminino do Brasil, atualmente 28º no ranking internacional T20, quer mais, após vencer quatro dos últimos cinco campeonatos sul-americanos dos quais participa apenas um punhado de países. Com o sucesso, veio também o dinheiro do Conselho Internacional de Críquete e os patrocinadores. 

O orçamento anual do Cricket Brasil subiu de cerca de US$ 5.000 há uma década para US$ 350.000, o que permitiu à organização lançar um programa de treinadores e enviar jovens promessas para a universidade. A vida de alguns jogadores mudou, como a de Lindsay Mariano, de 20 anos. "Antes de jogar, não tinha passaporte", diz, em uma pausa do treino para a próxima viagem da seleção brasileira pela África, mas agora "já viajei bastante graças ao críquete".

FÁBRICA DE TACOS 

Em uma oficina com vista deslumbrante sobre as montanhas do sudeste brasileiro, o carpinteiro autodidata Luiz Roberto Francisco esculpe um pedaço de pinheiro, transformando-o em um item raro no Brasil: um taco de críquete. Francisco, de 63 anos, é o orgulhoso proprietário da primeira fábrica de tacos de críquete do Brasil, com sede na pequena cidade de Poços de Caldas, Minas Gerais.

Não por coincidência, a cidade também é sede da Cricket Brasil, uma organização liderada pelo ex-jogador profissional de críquete inglês Matt Featherstone, que estabeleceu a ambiciosa meta de conseguir que 30 mil brasileiros pratiquem o esporte que ama nos próximos três anos. Por enquanto são 5.000, formados principalmente nos programas juvenis da organização, que também é o berço da seleção feminina.

Todos os planos, porém, foram interrompidos com a chegada da pandemia, deixando aqueles que espalhavam o evangelho do críquete sem um elemento vital do esporte: os tacos. Eis que interveio Francisco, um eletricista aposentado da fábrica local de alumínio da Alcoa, conhecido em Poços de Caldas como um habilidoso faz-tudo e engenhoso solucionador de problemas. Featherstone foi atrás dele. "Ele (Matt) me falou que estava precisando de alguém para fazer os tacos, e me perguntou: ‘Aceita o desafio?’", lembra Francisco. "Eu respondei: 'Aceito!’”.

CORAGEM E YOUTUBE

Francisco diz que nunca tinha segurado um taco de críquete na vida, mas ele usou uma combinação de tutoriais do YouTube, tentativa e erro e coragem para transformar sua oficina na "Royal Bats", sua nova empresa. Primeiro, Francisco aprendeu que precisaria aplicar duas toneladas de pressão na madeira para alcançar a densidade correta. "Não havia máquina no Brasil para fazer isso", diz o marceneiro. "Então eu tentei algumas coisas diferentes e acabei inventando uma".

Francisco não tinha certeza o tipo de madeira local que funcionaria melhor para a fabricação de tacos de críquete. Para solucionar o problema, começou a coletar restos e galhos que encontrava.

Após meses de tentativas, ele e a Cricket Brasil decidiram pelo pinheiro. Francisco agora pode produzir um taco em cerca de cinco horas. Eles custam cerca de 100 reais cada, cerca de 70 vezes menos que um taco premium importado da Inglaterra, feito de salgueiro. À medida que a cultura do críquete continua a se espalhar pelo Brasil, Francisco expande sua linha de produtos. Agora também fabrica o alvo do esporte, conhecido como 'wicket', e cadeiras de críquete dobráveis.

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