Brasileiros desistem da Maratona de NY

Depois de meses de preparação e treinamento intenso, muitos brasileiros resolveram jogar a toalha na última hora e desistir de participar da Maratona de Nova York, que acontece no dia 4 de novembro. O motivo é mais do que óbvio: o medo. Medo de novos atentados terroristas, depois que os Estados Unidos iniciaram os bombardeios no Afeganistão, no último domingo, e que tragédias como a da destruição das torres gêmeas do World Trade Center se repitam.A Avalon Turismo, de São Paulo, havia vendido pacotes que custaram de US$ 2 mil a US$ 3 mil, para um grupo de dez pessoas, todos homens e a maioria executivos. Entre segunda e terça-feira, nove desistiram. A proprietária da agência, Flora Nobre, negocia agora com as companhias aéreas o reembolso. Mas, segundo ela, os US$ 157,00 gastos com a taxa de inscrição para o evento e mais US$ 35,00 para o chip que é colocado no tênis de cada corredor, não serão devolvidos.Flora afirmou que o Hotel Hilton, onde parte do grupo iria se hospedar, chegou a baixar a diária em quarto duplo de US$ 430,00 para US$ 177,00. O desconto, no entanto, não animou os turistas. "Até acho que corremos tanto risco aqui, com a violência do dia-a-dia, quanto eles lá; mas trata-se de uma decisão muito pessoal", disse.O empresário Daniel Kunde, de 30 anos, sonhava em correr nesta maratona e, influenciado pelo amigo Fermin Padilla, iria participar com ele pela primeira vez. Kunde e Padilla vinham se preparando desde fevereiro, seis dias por semana, uma hora por dia, entre corrida, natação e ciclismo, rotina que se iniciava às 6h15. Tudo para ter fôlego para percorrer os 42 quilômetros da prova.Kunde iria acompanhado da mulher para depois da maratona fazerem passeios turísticos juntos. No domingo, após os primeiros bombardeios dos EUA, ambos chegaram à conclusão de que não se arriscariam a deixar a filha de apenas 1 ano e 1 mês no Brasil sem saber o real perigo ao qual poderiam ficar expostos. "Ficamos pensando em guerra biológica ou simplesmente na possibilidade de cancelarem vôos e não podermos voltar logo para o Brasil", afirmou. Como alternativa para fazer valer tanto esforço, Kunde resolveu correr de NY para Curitiba onde disputa uma prova no próximo dia 18. "Será só para matar a vontade. Meu sonho ainda é Nova York", garante o empresário.Persistência - O amigo Padilla, de 29 anos, solteiro e sem filhos, foi o único do grupo a não voltar atrás. Para ele, será finalmente a primeira maratona disputada. "Só não vou se cancelarem o evento", persiste o analista comercial. Padilla, que já morou em Nova York por oito meses, não teme novos atentados. "Tenho certeza de que os americanos irão se desdobrar para garantir a segurança dos participantes e do público. Agora se mesmo assim acontecer alguma coisa...Mas eu não penso nisso. Acho que a maratona será nossa (dos corredores) homenagem às vítimas do World Trade Center", concluiu.Mais fundos - E será mesmo uma homenagem. Por decisão da organização, a maratona será dedicada aos heróis e vítimas dos atentados de 11 de setembro e irá arrecadar fundos para as famílias das vítimas. O personal trainer Marcos Paulo Reis, que há dez anos leva atletas para a maratona de NY, acredita que o número de participantes este ano deverá ser bem menor que os 30 mil estimados pelos organizadores.Reis se baseia no resultado da Maratona de Chicago, realizada no último domingo, da qual participou pela quarta vez. Dos 37.500 inscritos, 28.500 participaram. No caso do comitê brasileiro, das 72 pessoas que iriam com ele para Chicago, apenas 32 embarcaram. Seu grupo para NY contava inicialmente com 30 maratonistas. Três desistiram na segunda-feira. "Acredito que mais da metade ainda vai cancelar a viagem", afirmou. O próprio Reis ainda não sabe se irá. "Se todos desistirem eu não vou".Entre os brasileiros famosos que há alguns anos são fiéis à competição está o empresário Abílio Diniz, presidente do Grupo Pão-de-Açúcar, que este ano estará, provavelmente assistindo ao evento pela TV. Segundo a assessoria de imprensa do grupo, a desistência se deve à uma cirurgia para reconstituição de um tendão à qual Diniz se submeteu há cerca de um mês.Os funcionários do Grupo, que no ano passado formavam uma comitiva de 100 atletas, também não estarão este ano correndo pelas ruas da Big Apple. O motivo não seria o medo de atentados, mas uma decisão tomada, no início do ano, de trocar NY por Paris. Vinte corredores participaram, em abril, da maratona francesa, informou a assessoria. Só não foi confirmado ainda se o filho de Abílio, João Paulo, que sofreu um acidente de helicóptero em julho, também irá desistir antes da largada.

Agencia Estado,

10 de outubro de 2001 | 16h12

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