Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Brasileiros lutam para superar fracasso de 2017 na São Silvestre

Após amargar no ano passado o pior resultado em 45 edições, corredores do País querem ao menos subir ao pódio e dificultar o trabalho dos favoritos africanos

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2018 | 21h44

A missão dos atletas brasileiros na 94.ª edição da corrida de São Silvestre, nesta segunda-feira, em São Paulo, a partir das 8h40, será bem mais modesta do que a tradicional busca para evitar a vitória dos africanos. Os representantes locais, tanto no masculino como no feminino, precisam primeiramente superar o péssimo resultado da última prova, quando o País amargou o pior resultado em mais de 40 anos.

Em 2017 o Brasil ficou longe no pódio. Entre os homens, o mais bem colocado foi o 12.º lugar de Ederson Pereira. Já entre as mulheres a melhor posição foi de Joziane Cardoso, que chegou em 10.ª. Na história mais recente da São Silvestre apenas em 1973 o País teve um resultado pior. José Romão Silva foi o 11.º — na época não havia a prova feminina.

A chance de superar o resultado ruim começa nesta segunda às 8h40, com a largada da prova feminina, e às 9h, para a corrida masculina. Apesar da expectativa de melhorar o retrospecto brasileiro, ao menos pelo currículo dos principais competidores é pouco provável crer na vitória de um atleta nacional. Os africanos mais uma vez se apresentam com mais força para a prova, que terá trajeto idêntico ao do ano passado.

“A gente se prepara, mas temos que contar com as falhas deles. Vamos torcer para eles errarem para chegarmos bem na prova”, disse o pernambucano Wellington Bezerra. “Vencer é algo que depende das condições. Vou batalhar para estar no pódio. É este o meu objetivo”, afirmou o paulista Ederson Pereira, o brasileiro mais bem colocado no ano passado.

A hegemonia estrangeira pelas ruas da capital paulista não é recente. A última vitória brasileira entre os homens foi em 2010, com Marilson dos Santos. Na prova feminina o jejum vem desde 2006, ano em que Lucélia Peres conquistou a corrida.

Em toda a história, apenas em um ano o Brasil ganhou as provas masculina e feminina. Isso foi justamente em 2006, com as vitórias de Lucélia e de Franck Caldeira.

O grande favorito para hoje na elite masculina é o etíope naturalizado barenita Dawitt Admasu, vencedor em 2014 e 2017, além de ter sido vice em 2016. Outro forte candidato é o queniano Paul Kipkemboi, campeão da Meia Maratona do Rio.

Admasu superou nos últimos meses uma lesão muscular e está confiante para buscar o tricampeonato. Nascido na Etiópia, ele afirma que as condições geográficas são as responsáveis pelo continente africano revelar tantos campeões.

“A altitude nos ajuda bastante. Eu me preparo para as corridas em locais com mais de 3 mil metros de altitude. Isso ajuda bastante a termos bons resultados em várias provas do atletismo”, afirmou o corredor, que na quinta-feira comemorou o 23.º aniversário. “Na Etiópia as crianças desde a escola treinam atletismo. Isso faz a gente ser muito forte no esporte e ter prazer em disputar provas”.

Se conseguir o tricampeonato, o corredor ficará perto de igualar o recorde do queniano Paul Tergat. O maior vencedor da São Silvestre ganhou cinco vezes a prova entre 1995 e 2000.

A prova deste ano terá a presença de mais de 30 mil inscritos, de nove países diferentes. A organização prometeu prestar atenção com os “pipocas”, apelido dado a quem corre sem estar inscrito. O cuidado se explica principalmente por questões logísticas, como o número de copos de água separados para se distribuir aos competidores nos pontos de hidratação.

FEMININO

Entre as mulheres, Joziane Cardoso foi a melhor brasileira em 2017 e é a principal esperança brasileira, junto com Tatiele Pereira, sétima colocada em 2016.

“Eu já tive um quarto lugar (em 2015) e estou em busca de um novo pódio. Eu treinei bastante, quero fazer uma boa prova. Minha tática é largar junto das meninas, mantendo contato para não deixar elas abrirem distância”, explicou Joziane. A companheira dela na busca para conter o favoritismo africano é campeã da Maratona Internacional de São Paulo 2018, Andreia Hessel.

A dupla tem como grandes obstáculos superar a etíope Sintayehu Hailemichael, segundo lugar em 2017. “No ano passado eu fiquei em segundo lugar, então treinei mais forte para melhorar e conseguir ganhar nesta vez”, promete a etíope. A queniana Esther Kakuri, campeã da Meia do Rio e da Meia Maratona de Buenos Aires outro destaque.

Favoritos da elite se sentem em casa no País

Um atleta nascido na Etiópia e outro nascido no Quênia gostam tanto do Brasil que não se sentem tão estrangeiros quanto correm na São Silvestre. Grande favoritos à vitória na prova masculina, Dawitt Admasu e Paul Kipkemboi serão adversários hoje em um País que aprenderam a gostar.

O queniano Kipkemboi mora em Taubaté e tem como um dos ídolos um compatriota famoso no Brasil. Paul Tergat ganhou duas medalhas de prata nos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000, e venceu cinco vezes a São Silvestre. Por isso, ele serve de exemplo para o corredor buscar a primeira vitória nas ruas de São Paulo, distante a cerca de 140 km da sua casa.

“Eu gosto de Taubaté, é uma cidade tranquila. O Brasil é um país agradável. As pessoas são amigáveis e gostam de esporte”, afirmou o queniano. Neste ano, ele ganhou a Meia Maratona do Rio de Janeiro.

Admasu, por sua vez, tem uma ligação ainda mais antiga com o Brasil e já esteve no País outras cinco vezes. Em 2014 ele ganhou a São Silvestre pela primeira vez. No ano passado ele repetiu o feito, com a diferença de ter vencido pela primeira depois aceitar o convite para se naturalizar barenita.

“A corrida em São Paulo é complicada, porque tem subidas muito fortes. Ainda assim, eu me preparei bastante para enfrentar tudo isso”, afirmou. O corredor garantiu a vitória nos 5 km finais no ano passado, justamente no temido trecho de subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio.

O bicampeão é uma espécie de diplomata dos atletas etíopes que desembarcaram em São Paulo para correr a São Silvestre. Por falar inglês, Admasu atua como tradutor nas entrevistas coletivas. Boa parte dos seus compatriotas só consegue se comunicar no idioma oficial da Etiópia, o amárico.

 

 

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