Brasileiros notáveis

Há brasileiros notáveis e nos damos conta disso apenas em situações especiais. A mais das vezes nem eles têm noção da popularidade e tocam a rotina aparentemente sem maiores sobressaltos ou proezas. Até que fatos excepcionais os destaquem e tudo muda. A parte do país que se interessa por esportes, por exemplo, hoje concentra a atenção em Ricardo Gomes e Fabiana Murer, dois personagens conhecidos e longe de serem espalhafatosos. Um atrai o olhar do público por solidariedade e apreensão; a outra, por alegria e orgulho.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

Ricardo há muito é figura carimbada no futebol e foge à média, desde os tempos em que encarava atacantes como zagueiro de bons recursos e poucas botinadas. Teve trajetória estável por Flu, Benfica e PSG. Não foi campeão do mundo, em 1994, por se machucar no último amistoso antes da estreia da Copa. Na época, assimilou o golpe com galhardia.

Fidalguia não lhe faltou como treinador, função que encarou ao se ver obrigado a pendurar as chuteiras, em 1996, com 32 anos incompletos. Ricardo Gomes não exibe o estereótipo clássico da profissão, que inclui timing dramático - com gestos, caretas, impostação de voz -, além de dissimulação. Em vez de gritar, conversa; antes de vociferar, argumenta. Não é canastrão e quem o acompanha sabe disso. Em resumo: homem educado. Todos já o vimos responder com paciência a perguntas cabeludas.

Não faria apologia da má criação, e prefiro a gentileza aos modos rudes. Mas de vez em quando Ricardo Gomes deveria soltar o verbo, no mínimo para espantar fantasmas que sempre carregamos. Extravasar faz bem à saúde, impor limites também. Não sou mestre no assunto, porque já quebrei a cara - e como! - pelo benedetto sangue napolitano, que ferve à mais leve provocação. Mesmo assim, me livrei de males e malas.

Não vou especular se o temperamento contido prejudicou Ricardo Gomes. Esse é tema para médicos. A postura cavalheiresca, no entanto, o fez respeitado, entre jogadores, torcedores e imprensa. Por isso, houve contentamento geral quando festejou o título da Copa do Brasil com o Vasco. O troféu era seu ingresso na galeria dos treinadores vitoriosos. Da mesma forma, o drama que vive desde a tarde de domingo desencadeia reações de preocupação e simpatia. Ele merece a corrente positiva.

Como é merecedora de aplausos, abraços, vivas e outros rapapés a Fabiana Murer. Pra quem anda meio capenga de emoções, foi uma sessão de adrenalina e tanto acompanhar as tentativas da moça, no Mundial da Coreia do Sul. Pela telinha da tevê deu frio na barriga ao vê-la correr, saltitar e, em seguida, apoiar a vara no solo, para subir, subir, subir, soltar o corpo e ultrapassar a trave sem tocá-la. A 4,85 metros de altura! Meu amigo, você sabe o que é isso? É como se a visse aqui, a entrar voando pela minha janela, no segundo andar.

Não sou dado a rasgos de nacionalismo extremado - tanto que não defendo execução de hino em Copa do Mundo. Não nego, porém, que arrepiou a cena dela envolta na bandeira brasileira, feliz da vida que nem garoto que se lambuza com sorvete. Se americanos, russos, franceses, jamaicanos, acostumados a ganhar ouro como se fosse café pequeno podem fazer festa, por que ficaria menos bonita a explosão da Fabiana?

Na hora da euforia, lembrei do desespero da Fabiana, nos Jogos de Pequim, quando deu por falta de uma das varas que utilizaria em sua estratégia para brigar no mínimo por pódio. Desta vez, saiu tudo certo pra ela, que pôde ver do topo a cara de rivais como Strutz, Feofanova, a lendária Isinbayeva, que ficou na mão.

Sei que é só o primeiro ouro do Brasil em Mundiais. Sei que não somos potências do atletismo. Sei que se trata de feito individual (como tivemos com gênios de nomes simples como Ademar, Joaquim, João), e não de política esportiva. Por um instante, relevo a prevenção e faço reverência respeitosa para uma brasileira notável.

Filme velho. Quer dizer que o prestígio de Tite despenca no Corinthians e passará por avaliação jogo a jogo? A partir do clássico com o Grêmio? Em outras palavras, o destino dele está decidido. A demissão será questão de tempo - essa a leitura a que nos induz o noticiário. Só há uma chance de salvar-se: vencer os 19 desafios que tem pela frente e ganhar a taça. Fosse ele, começaria a fazer cálculos e ver quanto há para receber.

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