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Brincando com fogo

Dirigentes dos times mais influentes muitas vezes esquecem que foram crianças ou então desprezaram conselhos seculares das respectivas mãezinhas. "Não brinque com fogo, que vai se queimar!" Diga lá quem já não ouviu isso pelo menos uma vez na vida ao preparar uma fogueira ou simplesmente ao acender palito de fósforo?

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2014 | 02h04

Pois os cartolas continuam a mexer com o perigo, na forma de regulamentos. Eles se reúnem nos conselhos arbitrais, que deveriam servir para discutir detalhes de torneios, e passam parte do tempo a colocar conversas em dia, a lamentar agruras econômicas e outras amenidades. Em seguida, dão vista rápida nos papéis apresentados pelas federações, colocam a assinatura e vida que segue.

Mais adiante, com a bola a correr, surgem questões fundamentais, como sistema de classificação, que induz a distorções e a desclassificações embaraçosas. Taí o Corinthians para confirmar a tese. Quando se deu conta de que poderia ficar fora das quartas de final, mesmo com número maior de pontos do que outros concorrentes, bateu desânimo, inconformismo e, até, insinuação de que fora prejudicados por rivais.

Mal começa a segunda etapa do certame e lá se esborracha o São Paulo, nos pênaltis, em casa e diante de um adversário no máximo aguerrido. Assim que se carimbou o "Eliminado" na testa, os tricolores caíram na realidade e se perguntaram como era possível tamanho disparate. Puxa, nem mata-mata não era?! Apenas mata?! Não há possibilidade de uma segunda chance? Em dois confrontos, não seria catapultado.

Provavelmente não mesmo. Como num campeonato regular, disputado por pontos, o Corinthians não se veria privado tão logo de permanecer na corrida pelo título. Agora não adianta espernear, nem reclamar para o bispo. Muito menos para Marco Polo Del Nero, que tem mais o que fazer ao lado de José Maria Marin, na maratona dele, particular, para alcançar a presidência da CBF. Paulistão fica em segundo plano, importa que deu para achatar os 20 times no calendário apertado.

Não se trata de defender elitismo nem privilégio eterno para as equipes grandes. Mas é contrassenso lidar com futebol profissional de maneira ligeira. São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Santos investem incomparavelmente mais do que o restante dos participantes da Série A local, têm interesses e riscos igualmente maiores. A cobrança que recai sobre elencos e treinadores nem por sombra atinge a turma que entra para ver o que vai dar.

Resultado da brincadeira: crises, tempo perdido, buraco no calendário, caixa sem funcionar por semanas, ausência da exposição da marca dos patrocinadores, dúvidas em torno da qualidade de jogadores e treinadores. A lista de aspectos negativos é grande. Pode-se alegar que São Paulo e Corinthians têm a Copa do Brasil para amenizar o prejuízo, o que não é verdade. Receber visitantes sem apelo não atrai público e, quando há segunda partida, também significa pressão e desconfiança.

A situação clássica do ficar no mato sem cachorro. Noves fora lambanças de regulamento, cabe observação inevitável: onde entra a competência? Veja o caso do São Paulo. Não é de agora que se atrapalha em momentos decisivos. O time titular de Muricy tem um punhado de jogadores estrelados - até campeão do mundo. Tá bem que o futebol é bacana também por permitir que zebras passeiem. Mas há momentos em que elas devem ser pegas no laço. Como deveria ocorrer anteontem.

O São Paulo travou - e não é de hoje. Depois do tricampeonato brasileiro, com o próprio Muricy, entrou em parafuso. Nos últimos seis anos, acumulou decepções, viu os títulos sumirem (só veio a Sul-Americana de 2012), investimentos em atletas foram furos n'água. Para complicar - ou por isso também -, a política atrapalha. A tarimba de Juvenal Juvêncio, tão incensada e elogiada, desceu ladeira abaixo. Nos bastidores, o clube "diferente" virou um balaio de gatos.

Isso tem preço, pago no campo.

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