Cadê o limite?

Alguns temas viram moda e fica difícil driblá-los. No futebol, o assunto do momento é Neymar, mais por causa de seus saracoteios e pitis do que por obra de dribles e gols. Tanto uns quanto outros se acumulam em sua ainda breve carreira. O rapaz virou centro de atenção por vários motivos: joga bem, é novinho, os adversários já o consideram abusado, trocou caminhão de dinheiro do Chelsea por carrão de luxo de grana do Santos e teve acesso de má criação com Dorival Júnior, anteontem, na vitória tensa do Santos em cima do Atlético-GO.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

As discussões em torno de Neymar enveredam por dois caminhos manjados - ou se passa a mão na cabeça dele, porque "tem apenas 18 anos", ou se desce o malho, "pois para ganhar muito é adulto, esperto e profissional". Enfim, a repetição, no terreno boleiro, do duelo eterno entre Bem x Mal, Deus x Diabo.

O bate-boca com Dorival foi feio, rolaram pelo gramado palavrões cabeludos e esperava a hora em que apareceria alguém para dizer "cospe aqui quem for homem" - senha para brigas de rua de antigamente. O desentendimento doméstico chamou a atenção até de René Simões, treinador do time goiano, que deu seu pitaco ao afirmar que nunca viu jogador tão "esportivamente mal-educado". Um bafafá e tanto. A tevê mostrou.

Dorival se sentiu ofendido, garantiu que haveria desdobramentos e ontem a diretoria do Santos anunciou que multaria o nervosinho. Era a reação oficial a um descontrole do jogador, que se irritou porque o treinador não o deixou bater pênalti, brigou com companheiros e abusou de pedaladas inócuas. Punição aplicada, desculpas públicas de Neymar, episódio encerrado e vida que segue.

Mas cabem reflexões. Ninguém gosta de ser xingado, sobretudo por um pirralho. Até prova em contrário, bons modos não fazem mal. Concordo. Mas é o futebol meio que se caracteriza por gentileza, discurso polido e relações amistosas? Os jogadores se tratam por "caro colega", "nobre rival"? Alguém chama o árbitro de "sua senhoria" e lhe observa que tomou "atitude equivocada"? Quando microfones captam sons do gramado, se ouvem palavras refinadas e suaves?

O futebol é um festival de apelações, de provocações, de xingamentos - de atletas, cartolas, treinadores, juízes, gandulas, maqueiros e torcedores. Quantas vezes na vida você ouviu (e falou) que "futebol é jogo pra homem", como forma de justificar rispidez e artimanhas? Fora a linguagem bélica: batalha, guerreiros, luta, matar ou matar etc...? Pra se impor nesse meio, é preciso ser macho. É como dizem, não o que penso.

O futebol é sujo fora de campo, também, ou principalmente. Quantas transações obscuras há? Suspeitas de arranjos, manobras de bastidores, acordos políticos, transferências mal-explicadas? Quem vive nesse meio pode até discordar, mas não rompe a roda-viva.

Por distorção, acomodação, costume, ignorância, certas práticas desde cedo são vistas como naturais entre a boleirada. Com risco de se perder a noção de normas básicas de cidadania. Por isso, pra mim, xingamento está na categoria dos pecados leves, coisa para dois pai-nossos e duas ave-marias.

Há fartura de previsões negativas sobre o futuro de Neymar, se mantiver comportamento fora de padrões. Então, é preciso enquadrá-lo. Mas em quê? Moldá-lo como? Que limite lhe deve ser sugerido? Que drible menos? Que não estoure demais? Que dissimule o que pensa e o que sente, em nome da normalidade? Não sei, não tenho a fórmula. Tenho preceitos que funcionam pra mim. Quem garante que sejam bons para outros?

Talvez Neymar seja assim mesmo - e dessa forma vai tocar a carreira e a vida. Pode se dar bem, como tantos ídolos de sucesso no esporte que seguiram cartilhas próprias e nem sempre simpáticas, humildes ou convencionais. Ou pode se dar mal e sumir, como aconteceu com incontáveis cometinhas de brilho passageiro. Quem sabe funcione um papo aqui ou ali, com os pais ou com pessoas em quem confia. Todos queremos ser donos de nossos destinos; portanto, que Neymar faça sua escolha. E seja feliz.

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