Ronaldo Rocha
Ronaldo Rocha

Cadeirante adota esportes radicais contra a depressão: 'Prometi viver intensamente'

Rifa de camisa dada por Jailson, ex-goleiro do Palmeiras, deu impulso a Ronaldo Rocha para ser esportista

Toni Assis, especial para o Estadão

26 de março de 2022 | 05h00

“É preciso correr o risco de morrer para saber que está vivo.” A frase se tornou uma espécie de mantra na vida de Ronaldo Rocha e abre uma de suas postagens no Instagram, onde ele aparece amarrado à cadeira de rodas saltando de rope jump, variante do bungee jump em que o praticante se lança de grandes alturas em queda livre.

O vídeo sintetiza a transformação de sua vida. Há sete anos, ao reagir a um assalto, uma bala raspou o seu coração e perfurou o pulmão, o diafragma e o estômago. Sem o movimento das pernas, foi por meio do esporte que Ronaldo, hoje com 38 anos, se negou a entregar os pontos. “Quando percebi que tinha virado deficiente, prometi a mim mesmo que iria viver intensamente, independentemente de estar paraplégico.”

O caminho foi a busca pela adrenalina. “Não podia parar com minha vida e ficar lamentando em cima de uma cama. Não combina comigo. Pratico rapel, rope jump, escalada, salto de paraquedas, rafting, canoagem... Quero fazer valer cada minuto da minha existência depois do que aconteceu”, disse ao Estadão.

Alimentar a paixão pelo Palmeiras foi a primeira aposta de Ronaldo. E a ajuda de um então jogador do clube iniciou essa retomada. “Sou palmeirense de carteirinha e cheguei a trabalhar nas obras da construção do Allianz Parque. Depois que fui baleado, torcer pelo Palmeiras era minha única distração. Era fã do Jailson, passei a acompanhá-lo nas redes sociais e um dia mandei mensagem pedindo uma camisa para rifar. Para minha felicidade, o ‘Jailson da Massa’ me atendeu.”

Com o presente, Ronaldo levantou os R$ 8 mil necessários e comprou uma cadeira de rodas. O gesto de Jailson o aproximou do fã. “Ele me convidou para conhecer as instalações da Academia de Futebol. Fui tratado como se fosse um grande amigo. Depois, nos falamos algumas vezes por telefone. Mas nada de futebol. Conversávamos sobre outros assuntos. Ele é sensacional e fiquei triste com a sua saída do Palmeiras.” Jailson está no América-MG.

OPORTUNIDADE

Na esteira de novos tempos, um convite para participar de um camping no CT paralímpico abriu a chance de turbinar seu DNA de atleta, já que poderia praticar modalidades adaptadas sob a supervisão de profissionais gabaritados. “Eu me encontrei no atletismo. O professor Vinícius Mathias foi o responsável pela minha entrada no esporte paralímpico e depois conheci o Cássio, meu técnico atualmente”, conta.

Em fase de transição para tornar-se atleta da seleção brasileira paralímpica no lançamento do disco, ele destaca a importância dos treinos e do trabalho feito no CT. “Tem toda uma técnica para lançar o disco. Posição do corpo, ângulo do braço, a forma de giro do tronco. Se o lançamento é feito com a mão direita, a mão esquerda tem de cumprir um movimento. A forma como você lança o disco tem de fazer uma parábola para o arremesso sair perfeito.”

VIA-CRÚCIS

A distância de 67 quilômetros que separa Ferraz de Vasconcelos, onde mora, do CT Paralímpico, no Jabaquara, em São Paulo, não é empecilho para Ronaldo. Cinco vezes por semana, ele acorda antes de o sol nascer a fim de preparar o café do filho Nicholas, de 15 anos, e deixar tudo ajeitado para o menino ir à escola.

“Eu e o Nicholas estamos sempre juntos. Ele me dá força para que eu não desista dos meus sonhos. Tenho também o apoio da minha mãe (dona Magda), que ajuda no que pode”, diz Ronaldo, aposentado.

Às 5h20 tem início a saga que é atravessar a metrópole paulistana. São quatro conduções (ônibus, trem, metrô e ônibus novamente) e cerca de duas horas e meia até chegar ao destino. “O CT é o melhor lugar do mundo. Ali vejo guerreiros e guerreiras sempre prontos para competir. Renovo as minhas energias. Quando retorno para casa, encontro forças para cumprir as tarefas domésticas com a ajuda do meu filho.”

Apaixonado por futebol, Ronaldo carrega com orgulho o amor que tem pelo Palmeiras. No carro, estampa no banco traseiro uma bandeira do clube. “Não tiro para nada. É o símbolo do que eu sinto pelo Verdão.” Na mochila que o acompanha no trajeto de Ferraz ao CT, uma camisa do time do coração está sempre à mão para ser vestida.

Aposentado por invalidez, Ronaldo ganha dois salários mínimos por mês (cerca de R$2424,00), conta que está sempre no Allianz Parque em dias de jogos e chegou a fazer as contas para ver se no orçamento caberia uma viagem para acompanhar o Palmeiras no Mundial de Abu Dabi. Infelizmente não deu.

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