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Caio Bonfim vira inspiração contra preconceito na marcha atlética

Quarto lugar nos Jogos do Rio tira selfies, mas ainda ouve insultos nos treinamentos

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 07h00

Assim que cruzou a linha de chegada dos 20 km da marcha atlética nos Jogos do Rio, Caio Bonfim fez um desabafo. Disse que era xingado em todos os treinos desde que começou, nove anos atrás. “Veado”, “bicha”, “vagabundo” e “para de rebolar e vai trabalhar” eram os insultos publicáveis. Dois meses depois de ter conquistado o 4.º lugar, alguns xingamentos continuam; outros se transformaram em pedidos para selfies nas ruas e avenidas de Sobradinho (DF).

Uma parte do treinamento de Caio é feita na pista do atletismo, no estádio Augustinho Lima. A outra precisa das ruas para simular as condições reais da prova, como piso irregular, descidas e subidas. Aí começa a luta contra o preconceito. “Não culpo a população. Nossa cultura esportiva é voltada para o futebol e as pessoas têm pouco contato com outras modalidades. Com o tempo e os resultados, as coisas vão mudar”, diz o atleta de 25 anos.

Na marcha atlética, o competidor não pode tirar os dois pés do chão. Quando um sai do solo, o outro começa o movimento. Para cumprir a regra, a perna tem de ficar esticada e, com isso, o movimento vai para o quadril e parece que ele está rebolando. Oito árbitros olham só isso nas provas. Se o atleta cometer três infrações, está eliminado da disputa.

A palavra principal na frase de Caio é “resultado”. Ele acredita que as conquistas são uma espécie de antídoto contra o preconceito. Ele cita o exemplo do vôlei masculino, esporte de relativa valorização no Brasil até os anos 1980 e que carregava a conotação de ser um esporte “para meninas”.

Esse perfil mudou quando, nos Jogos de Los Angeles, em 1984, a seleção masculina do Brasil conquistou o segundo lugar. A medalha de prata trouxe notoriedade e, a partir desse momento, muitas pessoas olharam para a modalidade.

Rodrigo Scialfa Falcão, psicólogo do Esporte, concorda com o raciocínio de Caio. “A familiaridade com uma modalidade esportiva facilita a aceitação e diminui os estereótipos”, explica. “Isso também aconteceu com o futebol feminino. O caminho ainda é longo, mas a situação mudou muito nos últimos 20 anos”, exemplifica o psicólogo.

Nesse sentido, Caio já começou sua caminhada. Em 2015, ele foi bronze no Pan de Toronto e sexto no Mundial de atletismo, na China. Ele completou a prova dos Jogos de Londres em 39º lugar e, extenuado, precisou ser amparado por uma cadeira de rodas nos 20 km. Corrigiu os erros de Londres e foi o quarto lugar, apenas cinco segundos atrás do medalhista de bronze, o australiano Dane Bird-Smith. Com 1h19s42, Caio Bonfim fez o melhor tempo da vida e deixou o circuito certo de que novos marchadores surgirão no próximo ciclo olímpico. Definitivamente, está entre os melhores do mundo. “Meu sonho é colocar a marcha atlética em outro patamar.”

O problema dos palavrões não é só com os homens. As meninas também são xingadas quase sempre com conotação sexual. Amélia Fortunato de Lemos, campeã brasileira interclubes na categoria mirim (até 15 anos) e segundo lugar na Copa do Brasil para menores (até 17 anos), conta que seus colegas de escola deram risada quando contou que praticava a modalidade. “Todo mundo riu de mim quando disse que estava treinando”, conta a atleta de 15 anos que estuda na 8ª série do Centro Educacional 2.

Amélia não se sentiu intimidada. “É uma modalidade técnica demais, mas estou motivada com os resultados do Caio e da Erica Sena (sétima na Olimpíada). Meu sonho é disputar os Jogos de Tóquio”, planeja a adolescente.

As chacotas não são de hoje. Gianetti Sena Bonfim, mãe de Caio, foi pioneira da marcha atlética em Brasília por volta dos anos 1990. Fundista de origem, ela é heptacampeã brasileira e campeã ibero-americana da modalidade. “Quando comecei, em 1996, não existiam marchadoras em Brasília. Já me jogaram coco, lata de cerveja e até abacaxi. Tem gente que jogava o carro em cima da gente”, lembra a ex-atleta. “A gente não aceita, simplesmente aprende a conviver com isso”.

A cidade de Blumenau, outro polo importante da modalidade, está conseguindo colocar em prática os sonhos de Caio Bonfim. Tudo começou lá atrás, na década de 1980, quando os alunos começaram a aprender marcha atlética nas aulas de Educação Física no ensino fundamental e médio. Os melhores alunos passaram a ser classificados para o Festival de Marcha Atlética e também para os Jogos Municipais de Blumenau. Eles ganham medalhas e iniciam a carreira como atletas. A última edição dos Jogos teve mais de 100 participantes. “As crianças não têm preconceito. Isso está na cabeça dos adultos”, afirma João Cesar Sendeski, presidente do Clube de Atletismo de Blumenau.

A cidade catarinense foi representada por três atletas na disputa dos Jogos do Rio: José Alessandro Baggio e Moacir Zimmermann, nos 20 km, e Jonathan Riekmann, nos 50 km. “Essa cultura esportiva foi passando de geração para geração. É uma questão educacional. Hoje, nenhum atleta é molestado ou xingado quando marcha pelas ruas de Blumenau. As pessoas só incentivam”, explica Sendeski.

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 07h00

O batismo de fogo para quem quer se tornar marchador é o treino na rua. O problema não está relacionado ao piso irregular. A encrenca é se controlar diante dos insultos e das piadas ofensivas. “Se o atleta tem vergonha, ele não vai ser marchador. As pessoas falam mesmo, xingam e o atleta não pode se desconcentrar”, diz a técnica Gianetti Sena Bonfim. “O treino na rua é o batismo de quem está começando”, completa o técnico João Sena.

Max Batista Gonçalves dos Santos passou pelo batismo. O vice-campeão brasileiro e líder do ranking na categoria sub-23 conta que foi sofrido. “Meu primeiro treino na rua foi um pouco chato. As pessoas falavam para eu parar de rebolar. Fiquei triste, mas superei. O Caio conversou comigo e acabou me ajudando muito”, conta. “Com a marcha atlética posso realizar o meu sonho de chegar a uma Olimpíada”, planeja o atleta de 22 anos.

Amélia Fortunato de Lemos, outra promessa da marcha atlética, classifica como “ignorantes” as pessoas que ainda xingam os atletas nas ruas. Diz que não sofreu discriminação na primeira vez que treinou na rua, mas sabe que foi uma das exceções do grupo.

João Sena, pai de Caio, marido de Gianetti e treinador de Max e Amélia, é reconhecido no Distrito Federal. Na pista há 36 anos, ele coordena atualmente um grupo de 30 alunos a partir dos 14 anos que se dividem nas categorias mirim, menor, juvenil e adulto do Centro de Atletismo de Sobradinho (Caso). Para incentivar os atletas, costuma levá-los aos treinos com seu próprio carro quando eles não têm condução.

O centro faz parte da trajetória de sucesso de alguns atletas brasileiros, como a ex-corredora Carmem de Oliveira, recordista sul-americana de maratona desde 1995 e primeira brasileira a vencer a São Silvestre. De 26 atletas que se tornaram campeões brasileiros, sete saíram do centro

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