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Ugo Giorgetti
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Câmeras, ação!

Nunca se reclamou tanto de arbitragens. Realmente os erros são inúmeros, alguns francamente grotescos. Nunca se viu juízes tão perdidos em campo. Há muitas explicações para o fenômeno, a começar pela diferença de postura e liderança dos juízes em atividade. Não todos, mas muitos. Juiz requer personalidade, isto é, um conjunto de qualidades de difícil definição, mas que, quando não existe, nota-se imediatamente.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h04

O juiz de personalidade infunde respeito só com sua presença, move-se em campo de outro modo, olha os jogadores de outro modo. A maioria dos árbitros que vemos por aí tem personalidade, digamos, um pouco opaca, tímidos, inseguros e, contraditoriamente, mais autoritários.

Mas há um outro fator que desestabiliza os juízes enormemente e é também causa das más arbitragens. Trata-se do endeusamento da câmera. Tudo é resolvido tendo como árbitro não aquele senhor que está ali perto, ao lado do lance, mas a câmera, a máquina infalível que, exatamente por ser máquina, acredita-se que não erre. O verdadeiro juiz atual é a câmera. É por medo dela que o juiz se encolhe. É pensando nela que, muitas vezes, ele fica indeciso, olha para os auxiliares, parece que à procura de ajuda. "O que será que a câmera viu que eu não vi ?", pensa em desespero. E o fato é que a câmera não vê coisa alguma. Ou melhor, as câmeras, pois hoje existe uma profusão delas tentando desvendar o lance de todos os ângulos possíveis. E nenhuma vê nada.

Tenho lidado com câmeras há muitos e muitos anos. Se há coisas criadas especificamente para enganar são as câmeras, ou melhor, as lentes. Cinema por definição é mentira, ilusão e artifício. Câmeras foram feitas para dar a impressão de que você está vendo algo real, mas todos sabem que não é verdade. Ninguém, numa sala de cinema, acha que está vendo algo real. Nem em documentários a câmera capta a verdade. Todas as fotografias mentem e distorcem, umas mais, outras menos. Somos todos ficcionistas, inclusive fotógrafos e documentaristas.

As câmeras e as lentes são artefatos que parecem perseguir a realidade, mas, na verdade, prescindem olimpicamente dela. No futebol, no entanto, a câmera é usada como suprema autoridade na apuração da verdade de um lance. E, de fato, ela só capta o óbvio, aquilo que salta aos olhos de todos, os lances indiscutíveis. Quando se trata de lances complicados, confusos, incertos, elas, as câmeras, valem tanto quanto a opinião do juiz, dos jogadores ou dos torcedores. Lentes distorcem as imagens que captam. A câmera está colocada a 40 metros do lance, mas a lente faz com que pareça que está ao lado, próxima, em cima. Isso já é iludir.

Essas lentes que aproximam a imagem a distorcem ao mesmo tempo. Um pé que parece colado a outro pé, não está. Há uma sempre uma distância, um intervalo, que a lente ignora. É tão incerta a imagem que se ouve frequentemente alguém dizer: "Bem, por esse ângulo eu tinha certeza, mas agora vendo desse outro ângulo me parece, etc, etc". Esse outro ângulo também é mentiroso, tão mentiroso quanto o primeiro. Todo mundo sai do lance convencido de que alguma coisa aconteceu. A lente é ótica avançada, é ciência, e ciência não pode mentir. Não pode estar errada. Mas está porque, como disse antes, há uma mentira essencial na finalidade da câmera.

O resultado de toda essa autoridade, desse oráculo que todos consultam e se submetem, é que se criou uma geração de juízes que já entram em campo apavorados. Olham para a quantidade de câmeras rezando para que a ninguém ocorra consultá-las. Tenho certeza de que árbitros, mesmo tendo a convicção de que viram corretamente, nos dias subsequentes mudam de opinião ao ver o lance esmiuçado de todas as maneiras, repetido à exaustão, até que o que podia estar certo parece errado. É o mundo das aparências, tomadas como a verdade. Não é uma coisa comum hoje em dia?

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