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Antero Greco
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Caminho suave

Pessoal, agradeço a satisfação que me proporcionaram os senhores José Maria Marin, Marco Polo Del Nero, Gilmar Rinaldi e Carlos Bledorn Verri, no futebol conhecido por Dunga. A primeira metade do quarteto toma conta da CBF e a segunda toca o bonde na seleção. Esse grupo retocou e aprovou código de conduta batuta para jogadores doravante convocados a defender as cores da pátria nas batalhas que os esperam pelo mundo. Que inclui o Brasil (vez ou outra).

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2014 | 02h04

Voltei décadas no tempo ao ler os jornais de ontem. A existência de versão atualizada de catálogo de boas maneiras - ou cartilha, no popular - foi publicada pela Folha de S. Paulo e vocês não imaginam como me fez sentir mais novo. Na hora, lembrei-me da infância feliz e risonha no Externato Santo Eduardo, na rua General Flores, encravado no querido Bom Retiro.

Pois lá, na escolinha da dona Mafalda, temida e respeitada por todos no bairro, o mundo das letras se abriu para mim pelas páginas ilustradas e mágicas de Caminho Suave, aquela sim a única cartilha instrutiva para muitas gerações. À medida que conferia itens impostos aos defensores da amarelinha, fazia associação imediata com o livro mítico, que devorei no pré-primário.

Estava na reportagem, por exemplo, que não é permitido o uso de bonés, brincos e outros acessórios ("Ivo vê a uva"); são vetadas manifestações religiosas ou políticas ("Vovô viu o ovo"); proibido usar chinelo nos locais onde a seleção se hospedar ("Zezé come azeitona"); o atleta deve cantar o hino nacional ("Z, de zabumba"); jogador não pode usar iPad, celular, etc em preleções, refeições e vestiários ("Cido deu coice no Totó"); ser pontual à programação realizada pela CBF ("A barata sumiu no buraco"). E por aí vai.

Gilmar e Dunga alegaram que não se trata de nenhuma novidade, apenas foi feita adaptação a regulamento anteriormente estabelecido. Explicaram, também, que toda corporação tem um conjunto de diretrizes a ser seguido pelos funcionários. Têm razão, em parte. A antiga CBD, por exemplo, baixou normas severas em 1958 para o grupo que foi ao Mundial da Suécia, assim como se repetiria em tantas ocasiões. E, de fato, empresas costumam ter normas.

A questão está no fato de que nem todas as recomendações - no futebol ou em outra atividade - têm o bom senso como base. Há muita gente que nada contra a corrente, se aferra a estereótipos ultrapassados e superficiais, perde o trem da história e, ao se dar conta, já entrou pelo cano junto com a firma. Vocês e eu cansamos de ver marcas tradicionais afundarem por inaptidão de quem as comandou, por falta de sensibilidade para a modernidade, etc.

Sem hipocrisia ou moralismo, o que tem a ver usar brincos, bonés, amuletos, anéis com a arte de jogar futebol? Em que os objetos influem no desempenho do atleta? Quem disse que a aparência indica a capacidade profissional? Mentalidade tosca, limitada, que se preocupa com o exterior e não com a essência. O aspecto importa tão pouco quanto fé, convicções políticas ou opção sexual. É risível.

Claro que um mínimo de ordem é necessário em qualquer atividade, ao menos para distribuir responsabilidades. Mas o que se deve estimular, acima e além do modo de vestir-se, são a criatividade, o comprometimento com as ideias e com os objetivos da empresa, a lisura no trabalho, a camaradagem. De que vale ter jogadores limpinhos por fora e desinteressados ou desunidos? Quem disse que atemorizar traz melhores resultados do que incentivar? Antes Neymar cheio de badulaques e tatuagens e arrebentando do que Neymar careta, comportado a contragosto. Só para ficar num caso.

Esse tipo de postura vale para tropas - e olhe lá. Na Europa, já se questionam tais preceitos para militares. Cada vez mais comum ver policiais na Itália, na França, na Alemanha estilosos, com cortes de barba e de cabelos modernos. Nem por isso são menos eficientes ou disciplinados.

Gente, vamos parar com bobeiras? ("Bebê toma gema de ovo.")

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