Campeã dos erros

Escrevi logo após as primeiras corridas do Mundial de 2008 que a Ferrari tinha o carro do ano, o que permitia apostar que também o título de pilotos ficaria com alguém de casa, mas era estranho como o favoritismo variava corrida a corrida, ora com Massa ora com Raikkonen, dando até a impressão de que na abertura do fim de semana de um GP a Ferrari já havia determinado de quem seria aquela etapa. Mas se a McLaren ou alguma outra rival viesse a encostar na Ferrari ao longo do campeonato, essa divisão de forças poderia atrapalhar. Aconteceu o esperado - a McLaren encostou. E ainda o inesperado - a Ferrari acumulou erros de estratégia ou de operação de pit stop. Somando-se tudo isso, já dá para justificar o palpite errado do comentarista no começo do ano. Isso nos leva àquilo que eu sempre digo do papel de um comentarista, seja de futebol ou de automobilismo. Ele tem obrigação de arriscar. Não é o que cada um faz quando está no sofá vendo um jogo ou uma corrida? O comentarista tem menos direito de errar, é claro, e por isso não dá para ficar chutando como se estivesse assistindo à corrida com amigos. Naquele início de temporada, mesmo derrotada na primeira corrida, a Ferrari tinha ganho outras três e vinha dominando os treinos. Nas demais 14 pistas, exceto quando a McLaren conseguia melhor desempenho dos pneus, a Ferrari continuou sempre tendo o melhor carro. Só perdeu o campeonato de pilotos porque errou demais. E quem poderia imaginar uma Ferrari atrapalhada na escolha de pneu, pit stop na hora errada ou até liberando o carro no box antes de soltar a mangueira de reabastecimento?A Ferrari já teve maus momentos na sua história, incluindo um período de 20 anos sem ganhar um título de pilotos. Mas este de 2008 só não será lembrado como negativo porque, ao final das contas, a equipe levou o título de construtores, venceu oito corridas e Felipe Massa lutou como campeão até a bandeirada da última corrida. Mas nem nos piores momentos desse período, quando não ganhava porque não tinha carro competitivo - o diretor esportivo da época era Luca di Montezemolo, atual presidente -, a equipe cometeu tantos erros de avaliação. O que resta de bom nisso tudo é que o atual diretor Stefano Domenicali reconhece todos os erros, sendo humilde o suficiente para pedir desculpas ao torcedor brasileiro pelo título jogado fora. Se ele perde em eficiência para o ex,Jean Todt, só quem trabalhou com os dois no dia-a-dia pode saber. Mas em transparência, a Ferrari ganhou muito. Deixou para trás a arrogância.Para o torcedor brasileiro, que tem em Felipe Massa um guerreiro disposto a tudo para vencer, é bom saber que Domenicali é mais uma forte razão para torcer pelo sucesso da Ferrari em 2009. A receita para que tudo dê certo é não errar como erraram este ano. O resto vai depender do período de adaptação que os novos pneus slick e as novas limitações aerodinâmicas vão exigir. A estimativa é de que os pneus gerem um ganho de 3 segundos e a aerodinâmica, uma perda de 3 segundos. Só que a equação não é tão simples assim. Tanto um como outro provocam mudanças enormes na reação do carro. É como se todos os pilotos com menos de dez anos de Fórmula 1 estivessem mudando de categoria para correr com carros que só têm a mesma potência de motor. Que bom! Vamos ver uma competição de talento.

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