Rolando de Freitas/Estadão
Rolando de Freitas/Estadão

Campeões do Mundial de futsal de 82 recordam a conquista com nostalgia

Douglas, Jackson e Paulinho lembram do Mundial de 82, que lotou o Ibirapuera com torcedores entusiasmados por uma modalidade relativamente desconhecida

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

06 Novembro 2012 | 22h14

SÃO PAULO - Trinta anos após a conquista do primeiro Mundial de Futsal, em São Paulo, os componentes da seleção brasileira recordam com saudades daqueles tempos de amadorismo. Eles lançaram o esporte no rumo do profissionalismo graças à iniciativa do presidente da Fifusa (Federação Internacional de Futebol de salão), Januário D'Áléssio, antigo dirigente do Palmeiras.

O goleiro Pança era um dos poucos que não trabalhavam - só estudava e jogava. Parte da base da equipe estava empregada num cartório, porque defendia o famoso Gercan, tetracampeão paulista de futsal (de 82 a 85). E Gercan significa Grêmio Esportivo Recreativo Cartório Adalberto Neto. A equipe foi criada com base no pinçamento de talentos de campeonatos de cartorários, uma das fontes de talento do chamado esporte da bola pesada.

Reunidos, os pioneiros do futsal se transformaram em herois de um triunfo cuja importância a Fifa quer ver apagada, num ginásio do Ibirapuera lotado. Sem remuneração, na era pré-profissional, deram o pontapé inicial num esporte que cresceu muito - a ponto de a Fifa o entesourar.

O importante é que terminaram por cima - a festa foi no Terraço Itália. Não ganharam dinheiro, mas carregam a honra de transformar um esporte meramente recreativo em algo televisionado e com prestígio. Grandes empresas patrocinaram e colaboraram para que o futsal crescesse, mas esse espaço só foi alcançado graças à teimosia de "abnegados", como define o fixo daquela seleção brasileira, Paulo Ladislau Rosas, o Paulinho.

Paulinho foi presenteado recentemente, por Douglas, com uma fita na qual foram gravados todos os gols daquela campanha. As imagens recuperam momentos que escaparam da memória do engenheiro de 54 anos. "Tenho saudades muito boas daquela época. A gente não ganhava nada. Eu era recém-formado e trabalhava numa multinacional americana. Tinha que pedir férias para poder participar da Taça Brasil ou do Mundial".

Antes da competição, a equipe se preparou durante mais de um mês em instalações do Exército em Fortaleza. O Ceará era um grande celeiro de talentos, graças a equipes como o Sumov, campeão da Taça Brasil de 82, e o Fortaleza. "A gente jogava por puro amor ao esporte. Eu comecei porque morava ao lado do Banespa", lembra Paulinho, referindo-se ao Esporte Clube Banespa, na Avenida Santo Amaro, em São Paulo.

Douglas, hoje treinador da ASF (Associação Sorocabana de Futsal), lembra que nem gostava muito de jogar bola nos seus primeiros anos. Coroinha de uma igreja no Belém, começou a jogar numa quadra da paróquia, entre uma quermesse e outra. "Eu não tinha muita vontade de jogar, mas, como chutava forte pra caramba, o pessoal insistia pra eu participar".

Sem saber, Douglas, ao ceder aos convites, estava transformando sua vida. Seu talento não só foi fundamental para a conquista do Mundial de 82, como também lhe rendeu convites para jogar no Corinthians de Sócrates e no Flamengo de Zico. "O Zenon me chamou pra jogar no Corinthians. O Casagrande veio do salão, e resolveram me chamar. O dinheiro do futebol não era o que é hoje, e eu achava algumas coisas muito diferentes. Eu demorava muito mais para pegar na bola. Chutava de bico e o pessoal tirava um sarro. No Flamengo, o Carpegiani quis que eu ficasse, mas eu era recém-casado, não quis ficar no Rio. No Corinthians, o Jorge Vieira disse que minha praia era o salão. Na verdade, pouca gente do salão vingou no campo."

Os momentos de glória do salão foram curtos, mas inesquecíveis. "Por um mesinho ficamos na mídia. Foi gostoso, eu dava autógrafos. E a mídia gostou. Passaram a mostrar os jogos na TV. O Luciano do Valle foi para a Record e transmitiam lá. O Milton Neves também falava do esporte na Jovem Pan. Foi muito bacana", recorda Douglas.

Jackson, eleito o craque do Mundial, relembra a importância do evento. "Passram a valorizar um esporte que não tinha atenção nenhuma da mídia".

O entusiasmo com a brilhante seleção de Telê Santana num ano de Copa se estendeu à turma do futsal. O Mundial foi em junho, pouco antes da Copa da Espanha. "Chegaram a dizer que o futsal era um prenúncio da glória que o futebol de campo ia oferecer. Infelizmente aconteceu aquela fatalidade no Sarriá", lamenta o camisa 12, que na época era gerente do Banco do Estado de Minas Gerais, o Bemge.

Em meio ao discurso recheado de nostalgia, os primeiros campeões mundiais de futsal só se amarguram ao comentar a exigência da Fifa, que determinou que o Brasil ocultasse de sua camisa, no Mundial da Tailândia, as estrelas referentes às conquistas dos Mundiais de 82 e 85 (Espanha). "A Fifa viu na Fifusa (Federação Internacional de Futebol de Salão) uma concorrente. Falou mais alto o interesse político e financeiro. Não podem desmerecer o que fizemos", protesta Paulinho.

CAMPANHA

Brasil 14 x 0 Costa Rica

Brasil 2 x 0 Argentina

Brasil 4 x 1 Checoslováquia

Brasil 5 x 1 Uruguai (quartas de final)

Brasil 4 x 1 Colômbia (semifinal)

Brasil 1 x 0 Paraguai 

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