Cansei

Não se deixe iludir pelo título da crônica de hoje. Não aderi, ainda que tardiamente, àquela turma de bacanas, socialites e congêneres que um tempo atrás protestou contra o governo porque estava farta de ter os Rolex roubados e os carrões arrombados. Sem contar que se sentiam acuados pelos pobres ao botar os pés na rua. "Um horror, cruz credo! E o presidente só pensa em viajar!" Ironia à parte, claro que é um direito de todos usufruírem de seus bens em paz e com consciência.Mas a conversa aqui é sobre futebol. Ou vamos ao que interessa, bola rolando, como dizia aquele antigo locutor de rádio, mesmo se o Brasil estivesse pegando fogo. Estou cansado de ver time nacional levar rasteira de argentino em final de Libertadores. Os hermanos já são um tanto folgados por natureza; agora, acham que aqui virou a casa da sogra. Pior, estão cobertos de razão. Se a decisão for contra brasileiros, arrumam a mochila, juntam uns trocos, lotam ônibus e vêm pra cá, porque a festa é garantida.O Vélez fez isso com o São Paulo, o Boca se divertiu com Palmeiras, Santos, Grêmio, só colecionando troféus e carimbando passaporte pro Japão. Anteontem, foi a vez de o Estudiantes dar a volta olímpica diante de milhares de torcedores embasbacados. Não sou mineiro, mas juro que torci de verdade para o Cruzeiro. Por se tratar de time brasileiro e, digamos, por razões de foro íntimo. Esse Estudiantes está atravessado na minha garganta há décadas... Ele então me custou um punhado de lágrimas e um radinho Mitsubishi espatifado. Desta vez, saiu mais barato: um murro na mesa, depois do segundo gol.O Estudiantes teve sorte, foi ajudado pelo juiz, recebeu as bênçãos dos deuses do futebol? Nada disso. Nenhum lugar-comum se encaixa para explicar a tragédia. O novo campeão sul-americano mostrou postura e autocontrole de vencedor nos 2 a 1 sobre o Cruzeiro. Foi maduro, equilibrado. O que se viu no Mineirão foi a enésima lição dos gringos de como aproveitar-se da eficiente conjunção de habilidade, técnica e aplicação para anular suposto favoritismo e superar real desvantagem (a vitória veio de virada).Não houve nó tático (outra figura de linguagem recorrente pra justificar resultados ruins) do técnico Alejandro Sabella sobre seu colega Adilson Batista. O Estudiantes teve comportamento previsível - defendeu-se com galhardia, não se incomodou com o relógio, muito menos com o barulho da torcida local. Teve sobretudo nervos no lugar, não bateu além do habitual em jogos desse teor, foi à luta quando levou o gol, empatou e em seguida nocauteou. O Cruzeiro, ao contrário, sentiu o golpe já no empate e não teve força "espiritual" após o segundo gol.Sei que garra é outro termo que vai bem nessas horas, para exaltar o ganhador. E funciona como contraponto para o comportamento do derrotado. Seria injusto insinuar que o Cruzeiro teve sangue de barata, enquanto o Estudiantes suou sangue. Os argentinos jogaram mais bola, vamos reconhecer, e ponto. Faz muito tempo que faço uma afirmação que muita gente considera exagerada ou provocativa. No futebol mundial, as escolas competitivas, que merecem respeito sempre, e em qualquer circunstância, são a italiana, a alemã, a brasileira e a argentina. Com um diferencial para estas bandas: argentinos e brasileiros são bons de bola. O resto é figurante, que eventualmente sobressai. E parabéns ao Estudiantes, que pra mim foi uma espécie de raio que caiu no mesmo lugar pela segunda vez.

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