Canto: ajudar pessoas lhe deu "gasolina"

Um medalhista olímpico, e do judô, todo zen: é Flávio Canto, nascido em Oxford, Inglaterra, que decidiu mudar sua vida depois de não se classificar para a Olimpíada de Sydney/2000, e encontrou motivação para literalmente continuar na briga depois de começar a ajudar as crianças da Rocinha, no Rio de Janeiro. Hoje, no ginásio de Ano Liossia, o brasileiro de 29 anos conseguiu a segunda medalha para o país em Atenas - o bronze dos meio-médios, ao derrotar o polonês Robert Krawczyk com um wazari e um yuko, contra um yuko e um koka. "Ainda não caiu a ficha", dizia aos jornalistas, depois de seus colegas de equipe fazerem um verdadeiro carnaval na arquibancada, que teve até choradeira. Flávio Canto contou que ajudar pessoas lhe deu "gasolina". Descobriu que o judô fazia parte de sua vida, mas não era sua vida. Disse também ter consciência de que existem coisas muito importantes que uma medalha olímpica. Assim, na volta ao Brasil - ele, que diz não gostar muito de festa - o judoca espera mais ajuda governamental e de patrocinadores para conseguir mais apoio às crianças com quem trabalha. Sobre as lutas de hoje, resumiu que havia derrotado o colombiano Mário Antônio Valles no Pan de São Domingos/2003 e decidiu "ir um pouco mais para cima" hoje. Na segunda, enfrentou o estoniano Alexei Budolin, um judoca muito constante, em sua definição, e ainda muitíssimo perigoso, que "andou ganhando tudo na Europa" de uns tempos para cá. "Eu tinha ganho dele em 1997, acho." O problema foi o cansaço, na terceira luta, com o russo Dmitri Nossov. "Em Olimpíada não se tem descanso de uma luta para outra. Eu estava dominando mas no meio tempo ele me deu um wazari. Aí não consegui recuperar. Fui muito para cima. Acho que fui um pouco burro também." Perdida a chance de ir à final, o judoca voltou o foco para tentar o bronze. "Contra o italiano (Roberto Meloni), comecei tomando punição, mas dei um wazari e o imobilizei. Foi um alívio, porque era a última luta antes da tarde." Começou a lutar pela medalha com o polonês Robert Krawczyk enquanto os outros atletas brasileiros movimentavam as arquibancadas, driblando os voluntários para sacudir bandeiras e faixas, gritando o tempo todo, como o pesado Daniel Hernandes: "Fica ligado! Fica ligadôôôô!" Flávio Canto contou ainda que passou a noite em claro, o que não acontecia há uns cinco anos. Depois de relembrar "o baque" de não ter ido para Sydney/2000 (esteve em Atlanta/96), falou também do País, "tão cheio de problemas, que precisamos mudar a inércia, parar de fazer parte da paisagem", e também que usa o judô como carro-chefe do que realmente acha importante, que é ajudar as pessoas. O judoca-advogado - "Eu me formei sem saber! Levei quase nove anos trancando matrícula, mudei de faculdade... Fui fazer a monografia e me disseram que já estava formado..." - também disse que na verdade sua grande medalha este ano foi ter o pai Luís Felipe aqui em Atenas, com toda a família, torcendo por ele, depois de passar por cirurgia quando implantou cinco pontes de safena.

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