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Antero Greco
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Caras de pau

A gente sabe que o mundo é dos espertos, e faz tempo. Para não cair na vala comum e embarcar na pilantragem, tentamos acreditar em lisura, honestidade, ética em qualquer atividade. Enfim, damos murro em ponta de faca em nome daqueles princípios herdados em casa e que deveriam ser corriqueiros, não qualidades raras.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2015 | 02h03

Não tem jeito: a toda hora topamos com malandragens prontas a nos darem rasteiras. Nem entro em assuntos de política ou outras áreas públicas. Para tanto, aqui mesmo no Estado tem pessoal com gabarito para contar, analisar, criticar.

Só o futebol já dá assunto para encher páginas sobre picaretagens. Nem baixou a poeira das falcatruas de integrantes da família Fifa - espero que não assentem de fato - e lá vêm à tona sujeiras da América do Sul. As escutas telefônicas que registraram conversas entre dirigentes argentinos são de embrulhar o estômago e afetar o fígado.

Na maior cara de pau, o falecido Julio Grondona, ex-todo-poderoso da Associação de Futebol da Argentina, troca ideias com amigos dele, nas quais se gabam de maracutaias para beneficiar times domésticos em competições internacionais. No que diz respeito a brasileiros, chamam a atenção supostas interferências do defunto cartola nas Libertadores de 1964 (!!!) e de 2013.

Na primeira, ele teria sido decisivo para o Independiente impedir o tricampeonato do Santos, que tinha Pelé, Pepe, Coutinho, Zito e outros astros. Na lata, diz que dobrou o árbitro da semifinal. Na segunda, dá a entender que Carlos Amarilla e bandeirinhas fizeram o serviço em favor do Boca em duelo com o Corinthians em São Paulo. As façanhas são relembradas entre risadas, como é usual entre cafajestes quando se vangloriam da maneira como zombam dos otários da vida.

Grondona já entregou a alma ao Coisa-ruim, porém as maldades dele continuam a ter desdobramentos na terra. Amarilla e bandeirinhas foram afastados, o Corinthians vasculha brecha para alguma indenização; o Boca se finge de morto. Por ironia, após passar pelo rival brasileiro nas oitavas de final caiu na fase seguinte diante do Newell's.

O estrago maior incide sobre a credibilidade do planeta da bola. Esse universo está encardido, podre, tomado por oportunistas da mais baixa espécie. Aproveitadores, achacadores que manipulam profissionais, resultados, regulamentos, campeonatos. A ganância e os interesses deles mudam a história do esporte, destroem trabalhos sérios, derrubam reputações. Mas acima de tudo mexem com sentimentos.

Os canalhas (de qualquer nacionalidade) brincam com a paixão de milhões de torcedores e pouco se lixam de iludir uma parte com vitórias enganadoras ou de tripudiar da tristeza de outra. O sujeito acompanha o time, se descabela com injustiças durante os jogos, procura conformar-se com a hipótese de que falhas acontecem. Até que um dia surge a versão de tramoia. Fica com cara de tacho, bobo, trouxa.

Evidente que erros ocorrem, claro que a maioria dos árbitros e auxiliares é honesta. Eles não devem ser tomados como judas. Mas são afetados da mesma maneira que treinadores, atletas, fãs, jornalistas, patrocinadores que confiam na competência - ou até no acaso - como determinantes para os resultados. Jamais os arranjos de bastidores.

Por isso, não pode haver condescendência com trapaceiros, sequer sob o olhar complacente de que são personagens "folclóricos". Não devem ser encarados como autoridades, não podem ser chamados de doutores, não têm o direito de despejar mentiras nos nossos ouvidos. É acinte vê-los circular como poderosos. Não tem perdão para o crime de roubar e destruir nossas ilusões.

Dá o que pensar: quantos duelos se decidiram na mão grande?

Descanso. Neymar pisou na bola, foi suspenso, saiu da Copa América e se mandou pras férias. Era o melhor, não havia o que fazer no Chile. Que cuide do físico, da cabeça e dos problemas com a Justiça da Espanha.

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