Mark J. Rebilas-USA TODAY Sports
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Carl Nassib fez história como primeiro jogador assumidamente gay na NFL, mas também um grande jogo

Colegas de time, mídia e observadores repararam casualmente no feito, e então aplaudiram sua atuação

Emmanuel Morgan, The New York Times

22 de setembro de 2021 | 20h00

Um dos mais significativos marcos culturais na história recente dos esportes norte-americanos ocorreu com um estardalhaço semelhante a um encolher de ombros. Nenhum jogador assumidamente gay havia competido em uma temporada regular da NFL em seus 102 anos de história até 13 de setembro, quando Carl Nassib, do Las Vegas Raiders, entrou em campo para enfrentar o Baltimore Ravens como tem feito em todos os jogos de sua carreira profissional de seis anos.

Em meio à pompa de um jogo de futebol na segunda-feira à noite, o momento de quebrar barreiras de Nassib ocupou um lugar secundário na cerimônia de inauguração do novo estádio de US$ 2 bilhões (R$ 10,5 bilhões) dos Raiders. O maior reconhecimento do feito de Nassib veio de alguns participantes vestindo sua camisa 94, e não de qualquer gesto orquestrado.

No domingo, ele fez isso novamente quando os Raiders derrotaram o Pittsburgh Seelers, com Nassib e o time fazendo um esforço conjunto para levar adiante o que ele conquistou e deixar os outros discernirem e dissecarem se uma significativa mudança cultural ocorreu na liga.

Especialistas em diversidade e inclusão nos esportes disseram que tudo aconteceu como deveria. "Acho que o fato de não chamar muita atenção é muito positivo”, disse Richard Lapchick, diretor do Institute for Diversity and Ethics in Sport. “É um sinal do quanto isso tem sido aceito sem muito estardalhaço a respeito."

No dia 21 de junho, Nassib revelou ser gay em um vídeo postado em seu Instagram, dizendo que tinha internalizado sua sexualidade como um segredo por 15 anos. O vídeo de um minuto, filmado do lado de fora de sua casa em West Chester, Pensilvânia, gerou uma enxurrada de mensagens de parabéns nas redes sociais, incluindo seus pares na NFL e o presidente Joe Biden. A camisa de Nassib foi a mais vendida da NFL em 24 horas, de acordo com a Fanatics, parceira de comércio online da liga.

Antes de Nassib, 15 jogadores na história da liga identificaram-se como gays ou bissexuais, de acordo com o Outsports, um novo site que cobre atletas LGBTQ e questões esportivas. Mas ao contrário de Nassib, eles anunciaram sua sexualidade após o término da carreira ou nunca jogaram em uma temporada regular.

Antes da temporada começar, Nassib disse que iria doar US$ 100 mil (R$ 527 milhões) ao Trevor Project, uma organização de intervenção de crise para a juventude LGBTQ. Ele contatou a organização cerca de dois meses antes de sua postagem no Instagram para discutir um plano, disse Amit Paley, diretor executivo do Trevor Project. Em suas conversas, Paley disse que Nassib queria aumentar a conscientização sobre as questões LGBTQ ao invés de simplesmente colocar o foco em si mesmo.

As coisas se acalmaram quando os treinos começaram um mês depois. A camisa de Nassib não lidera mais as vendas da liga, mas continua entre as cinco mais vendidas dos jogadores dos Raiders, de acordo com a Fanatics.

Ele recusou diversas entrevistas e falou publicamente apenas uma vez antes do primeiro jogo. Contra o Baltimore Ravens, Nassib jogou 44% dos snaps defensivos em uma função de revezamento, fazendo três tackles. Mas na prorrogação, colidiu com o zagueiro do Ravens, Lamar Jackson, por um sack, e forçou um fumble que a defesa dos Raiders recuperou. O Raiders marcou um touchdown de walk-off para ganhar o jogo de 33 a 27 duas jogadas depois.

Nassib, agora em seu terceiro time desde que o Cleveland Brown o convocou em 2016, liderou o país com 15.5 sacks na Penn State quando era veterano e ganhou o prêmio Lombardi como o melhor atacante da nação. Ele tenta se lembrar de coisas de todos os jogos, ele disse, mas saboreou especialmente a vitória de segunda à noite. "Foi muito especial", Nassib disse em uma entrevista coletiva após o jogo. "Estou muito feliz que ganhamos em um dia que fez um pouco de História."

Seus colegas de time não mencionaram o papel histórico de Nassib na vitória. O técnico Jon Gruden elogiou apenas seu desempenho em campo. O companheiro de equipe, Maxx Crosby, também o fez, dizendo simplesmente, "Carl é um grande jogador e tenho orgulho dele."

A ESPN, rede que transmitiu o jogo, também tratou a conquista de Nassib sutilmente. Colocou no ar um vídeo de 28 segundos no terceiro tempo com clipes de seu vídeo no Instagram e algumas fotos. Em uma transmissão alternativa na ESPN 2 trazendo os zagueiros aposentados da NFL Peyton Manning e Eli Manning, o ex-jogador Charles Barkley apareceu como convidado vestindo a camisa de Nassib.

Em agosto, Nassib disse que seus colegas de time o apoiaram desde que ele se revelou gay. Os Raiders não disponibilizaram nenhum jogador para comentar, mas Derek Carr, cujo armário é próximo do de Nassib, disse durante os treinos que não havia nada para ser discutido. "Desde que ele entrou eu só gosto de assistir e, do meu ponto de vista, ninguém o tratou diferente", Carr disse.

Amy Trask, ex-CEO dos Raiders, disse que isso faz parte da tradição de um time que historicamente acolheu a diversidade. Em 1997, ela se tornou a primeira mulher CEO da NFL. Tom Flowers, que é mexicano-americano, foi o primeiro técnico latino da NFL a ganhar um Super Bowl, ganhando dois com os Raiders, nas temporadas de 1980 e 1983. O time também convocou Eldridge Dickey, ex-jogador negro selecionado na primeira rodada, em 1968, quando os Raiders jogaram na AFL.

Trask disse que não ficou focada na história que fez em seu primeiro dia ou se seus colegas mudariam a forma de tratá-la. Ela não está surpresa com a forma que Nassib e os Raiders lidaram com isso na semana passada. "Essa é uma organização que tem tradição de contratar pessoas sem pensar em raça, gênero ou qualquer outra individualidade. O que importa é o trabalho em si", Trask disse em uma entrevista. "Na minha opinião, é muito, muito especial, que Carl seja um Raider." 

"Ele foi lá e fez seu trabalho, da forma que queremos que qualquer jogador faça", ela disse. /TRADUÇÃO DE LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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