Carrancudos e durões só da porta de casa para fora

Segundo as esposas, Tite, Gilson Kleina, Ney Franco e Muricy são sensíveis, apaixonados e superprotetores

GONÇALO JUNIOR, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h08

Muricy escondeu o anel embaixo da mesinha da televisão. Era uma meia aliança de brilhantes pequenininhos, capaz de refletir até o brilho do olhar de quem ganha um presente assim. Para encontrá-lo, a mulher, Roseli, teve de seguir as pistas de vários bilhetes espalhados pelo apartamento do casal, em Puebla, no México, onde eles se casaram. Foi de papelzinho em papelzinho até a joia.

Quem pensa que isso só acontecia no início de casamento, deu com os burros n'água. Depois de 33 anos, o carrancudo técnico do Santos continua bonzinho, como define a mulher, e volta e meia aparece com orquídeas, sua flor preferida.

Felipão prefere as rosas. Após inúmeras viagens, ele sempre trazia para Olga um buquê de rosas, nem que fosse comprado no farol. Vermelhas, claro.

O comportamento do técnico da seleção chamou a atenção da imprensa britânica. O The Independent fez uma grande matéria sobre a estabilidade do casal, que está junto há mais de 40 anos, durante o período em que Felipão dirigiu o Chelsea.

Mesmo depois de 28 anos de casado, Tite vai além. É do tipo que faz loucuras de amor. Em um aniversário recente da esposa, estendeu uma faixa de "parabéns pra você" no meio de um restaurante. "Ele gosta de andar de mãos dadas e dizer que me ama", orgulha-se Rosmari, a senhora Tite. "É amabilidade", diria o corintiano com seu vocabulário característico.

Ney Franco, chamado carinhosamente de Pretinho pela esposa, Hérika, aproveitou a vitória heroica sobre o Atlético Mineiro, na semana passada, para levá-la ao restaurante português Trindade, em São Paulo. Tomou cuidado para escolher um vinho francês com a uva preferida da amada, a pinot noir, uma das mais elogiadas pelos especialistas. "Poderia ser mais romântico. Acho que falta alguma coisa", diz o são-paulino.

Moral da história: os treinadores brasileiros escondem, debaixo do agasalho esportivo, da carranca, da obsessão pela vitória, da carapaça de durão, das pranchetas e das medalhas que adornam o peito, um coração sensível e apaixonado. São cordeiros em pele de lobos.

Déa Kleina conta que o marido tem dupla personalidade por causa dessas mudanças de humor. "Ele parece um general no campo, mas é um farrista. É romântico do jeito dele", conforma-se.

O psicólogo do esporte Rodrigo Scialfa Falcão não vê problemas no comportamento duplo. "Todos nós temos de exercer papéis diferentes diariamente. É saudável que eles sejam flexíveis e não sejam durões o tempo todo. É importante não ser tão rígido."

Sensíveis, apaixonados e superprotetores. Todas as esposas só deram entrevistas ao Estado após consultar seus respectivos. Os treinadores só autorizaram a participação das esposas nesta reportagem depois que tiveram a certeza de que seus colegas também tinham permitido. "Eles querem preservar a família por questões de segurança", diz um amigo de um dos técnicos. "A gente compartilha tudo", ameniza Roseli.

Novas palavras. Em tempos de relacionamentos instantâneos, chama a atenção a longevidade dos casórios dos técnicos. Aí, os conselhos variam de acordo com as cores dos uniformes que defendem. Ney Franco separa ao menos um dia da semana só para os dois, sem as crianças. Roseli fala de tudo, menos de futebol. Rosmari é a psicóloga e a ouvinte. "O casal precisa buscar um bom relacionamento. É preciso ter vontade e trabalhar por ele", receita Hérika.

Como uma bola, a cumplicidade vem com o tempo e o tempo traz mais cumplicidade. Até chegar o momento em que o olhar vale mais do que mil palavras, expressão usada por vários casais para definir o estágio em que se encontram.

Déa tem a liberdade de corrigir o português do marido nas entrevistas. Kleina gosta de incorporar novas palavras. Antes de usá-las, o palmeirense consulta a esposa e tasca as palavras na entrevista. Sua última "aquisição" foi "haja vista".

A intimidade dá carta-branca para piadinhas que não seriam feitas no namoro. "A barriga dele é grande para suportar o tamanho do coração. Ele é uma pessoa muito bondosa", diz Déa.

Ciganos. Nem tudo são flores - literalmente - na vida de uma esposa de treinador. O problema principal é a vida cigana do futebol. Roseli conta que ficou nove anos vivendo longe de Muricy no período em que ele passou por Pernambuco (Náutico), Santa Catarina (Figueirense) e Rio Grande do Sul (Internacional). "Nessa época, fui pai e mãe das crianças", conta a mãe de Fabíola, Muricy Junior e Fábio. Com um problema parecido, Déa dá graças a Deus quando acaba a bateria do celular do marido.

Mas, como toda história de amor - e também as reportagens sobre técnicos de futebol - implora por um final feliz, ficam aqui dois. Depois de uma crise de diverticulite, Muricy prometeu desacelerar. E, apesar de estar atarantado para dar uma padrão de jogo à seleção, Felipão ainda é um grande cliente dos ambulantes no farol.

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