Carrossel

A série Mad Men - ganhadora dos prêmios Emmy e Golden Globe para todas as suas temporadas - é uma das raras combinações de sucesso de crítica e público e, para muitos, a prova definitiva de que a TV superou o cinema como forma superior de entretenimento. Ela aborda os dilemas de funcionários de uma agência de publicidade da Madison Avenue, tendo como pano de fundo os conturbados Anos 60. O personagem principal é Don Draper, um sujeito capaz de apresentar ideias brilhantes de forma ainda mais brilhante. Um dos grandes momentos da série é a apresentação de uma campanha para os executivos da Kodak, que haviam desenvolvido um revolucionário (para a época) sistema de projeção de fotos. O mecanismo, chamado de "a roda", deveria ser vendido como algo absolutamente inovador.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h03

Draper escolheu outro caminho. Ele preferiu abrir sua apresentação falando que, a despeito da palavra mais importante da publicidade ser "novo", a abordagem para aquele produto deveria evocar não a novidade, mas a nostalgia. "A roda", por mais inovadora que fosse, era um elemento capaz de nos transportar no tempo e nos levar para outros lugares e épocas de nossas vidas, fazendo girar uma sequência de slides. Conforme explicava isso, o publicitário projetava fotos de tempos felizes de sua própria família, emocionando a todos. "Em tempo" - arrematou - "o nome do produto não deve ser 'a roda', mas 'Carrossel'". Não preciso dizer que a agência de Draper ganhou a conta.

Fiz esta introdução para chegar ao assunto que dominou completamente a mídia na última semana: o jogo Barcelona 4 x 0 Santos. Atrevo-me a dizer que esse evento foi quase tão comentado quanto o Natal - e que fotos de Messi rivalizaram em profusão com as imagens do próprio Papai Noel.

Quase todo mundo apontou o espetacular Barça como uma grande revolução no futebol. Para mim, o estilo do time de Guardiola é revolucionário, sim, mas no sentido do Carrossel da Kodak. O que há de revolucionário no jogo dos catalães é justamente a nostalgia. O Santos foi posto na roda por uma equipe que evocou o toque de bola e o virtuosismo de grandes equipes do passado: o Real Madrid de Puskas e Di Stéfano, o Santos de Pelé, a Seleção Brasileira de 1970, o Carrossel Holandês.

Carrossel. Poucas vezes a crônica esportiva foi tão feliz para designar o estilo de jogo de um time quanto naquela Copa do Mundo de 1974. "Carrossel" é uma palavra que evoca dinamismo e constante mobilidade, mas também - e não menos importante - leveza, alegria, poesia e criatividade. O Santos, é bem verdade, não jogou à imagem e semelhança da inventividade de Neymar, mas da visão conservadora e previsível de seu comandante, Muricy. Isso, no entanto, não tira o mérito do Barcelona, uma equipe que está revolucionando o futebol com uma visão nostálgica do prazer de jogar. Para quem ama o esporte, isso é um belo presente de Natal.

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