Casca de banana

Lembra da piada do sujeito que vem andando pela rua, vê uma casca de banana e se lamenta: "Xi, vou escorregar de novo!"? Pois é, Mano Menezes parece o personagem da anedota. No comando da seleção, topou com várias cascas de banana - França, Holanda, Alemanha, para citar algumas -, não soube driblá-las e, para complicar, derrapou mais uma vez. O empate de 0 a 0 com a Argentina, anteontem, foi a mais recente pegadinha que colocaram no caminho do técnico. E ele caiu como um pato. Porque quis.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2011 | 00h00

Quis como?, alguém pode perguntar. Afinal, não tinha como vetar o inútil, inoportuno, insosso duelo com os hermanos. De fato, não lhe cabia abrir mão de compromisso comercial das duas confederações. Os patrões se acertaram e os empregados executaram. Ou você tem dúvida de que o tal Superclássico das Américas, com direito a revanche no dia 28 em Belém, não passa de grande mico? Símio que renderá grana e crédito político para os cartolas, e que cobrará dos dois treinadores, obrigados a usarem só atletas "domésticos".

Qual foi, então, o pecado de Mano? Ela cometeu deslize ao não aproveitar o extemporâneo duelo em Córdoba para fazer experiências - mas de verdade, não de mentirinha. Já que não podia contar com todos que neste momento considera imprescindíveis para o trabalho para 2014, que pelo menos usasse o jogo para testar gente teoricamente com futuro com a amarelinha. Daí, encontraria valor na partida e justificativas consistentes para o resultado, qualquer que fosse.

Em vez de recorrer a Renato Abreu e Kléber, por exemplo, por que não mandar para prova de fogo jovens talentos como Oscar e Lucas? No mínimo, teria discurso mais sólido para explicar eventual derrota - no mais, alternativa nada anormal. Mas Mano, preocupado com a imagem e com apresentações pouco edificantes que a equipe tem contra rivais de peso, optou pela segurança, pelo convencional. Em sua avaliação, não deveria correr riscos, pois perder de novo para os argentinos (houve derrota no ano passado) aumentaria seu déficit.

O receio de errar o induziu a engano maior. Sei que o medo é sentimento humano, compreendo certos vacilos. Todos temos nossos fantasmas e o quanto nos atazanam. Agem principalmente quando bate insegurança - e talvez esse seja um espectro que o assombra. Embora em público se mostre seguro no cargo, vai saber se intimamente não lhe assalta incerteza? Porque seleção, assim como clube, dá cartaz com vitórias. E palavra de dirigente é volátil demais.

Mano desperdiçou oportunidade de revelar ousadia num jogo sonolento, mais chato do que discurso de formatura. Vá lá, começou com Ralf, Paulinho e Renato Abreu no meio-campo, percebeu que não deu liga, então mudasse, mas logo. Oscar era para ficar em campo desde o começo - não porque seja melhor do que Renato Abreu (até acho que é), mas para colocá-lo em xeque. Ele na teoria tem porvir na seleção, Renato, não. É fato e não campanha a favor daquele e contra este.

Lucas também ilustra a hesitação de Mano. O são-paulino esquentou banco e o treinador respondeu, na entrevista, que não lançou mão dele "porque não deu". Daria, certamente daria. Por que não ver como ele se comportaria ao lado de Leandro Damião e de Neymar, sem tirar Ronaldinho? O gaúcho jogaria na posição de Renato Abreu, para citar uma alternativa.

A consequência de tamanha cautela foi uma seleção sem graça, com zero de emoção e bem perto disso em criação (ressalvadas esporádicas aparições de Neymar). Mano tem perfil light, um lorde em comparação com o antecessor. Educação é fundamental, mas insuficiente para garantir sucesso. O Brasil desaponta, seja em amistosos de peso, seja em Copa América, seja em jogo mequetrefe como esse com a Argentina. Alguém tem de abrir o olho - gostaria que fosse o próprio Mano. Pelo jeito...

Mil dias. Fala-se que hoje haverá festas nas 12 cidades escolhidas para abrigar as partidas do Mundial de 14 por causa data "redonda". Você está preparado para comemorar? E festejar o quê? Os estádios custarão os olhos da cara, em várias sedes as obras estão atrasadas, o orçamento para tudo aumenta e, em certos casos, como São Paulo, pode atingir cifras escandalosas. Só dá risada quem vai ganhar com isso. Só sei que vou pagar a conta e dá vontade de chorar.

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