Catedrais e capelinhas

Boleiros

Antero Greco, antero.greco@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

11 de janeiro de 2008 | 00h00

Faltam campos no País da Copa de 2014. Por conta de podridão. A bola aos poucos começa a rolar, Brasil afora, mas muitos estádios estão vetados, ou correm o risco de interdição, por falta de segurança. Novidade a descoberta? Não. A constatação já existia e havia sido denunciada por entidades ligadas a engenharia e arquitetura. Por algum tempo não recebeu nada além do desdém de cartolagem tão ultrapassada quanto as arquibancadas em ruínas. Agora algumas mentes mais sensatas chegaram à conclusão de que não vale a pena o risco de ver repetida tragédia como aquela da Fonte Nova no fim de 2007. O alarme maior veio do Pará, com o fechamento de 11 estádios. Importa menos se o veto é temporário ou definitivo. Assusta mesmo o fato de esses locais se mostrarem matadouros em potencial. Essas estruturas em frangalhos são conseqüência de descaso, de empobrecimento dos clubes (ou de municípios) e de mentalidade atrasada, que encara o torcedor como componente insignificante no futebol. Para muitos dirigentes, o público até atrapalha - é gentalha, gado sem vontade e opinião.No Pará, fala-se que a saída é concentrar jogos no Mangueirão. Rematada besteira, pois a sobrecarga de uso só servirá para deteriorar o único recanto esportivo minimamente decente de Belém. O efeito dominó, iniciado em Salvador, estende-se por Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Goiás... Dá para cometer a heresia de fazer paráfrase da "Ciranda da bailarina", uma das obras-primas de Chico Buarque. "Procurando bem, todo estádio é perigoso..."Há quem aposte no Mundial de 2014 como o marco da redenção brasileira. Não tenho dúvidas de que serão erguidos belos palcos para a disputa, da mesma forma que haverá campos em boas condições disponíveis para as seleções convidadas treinarem com conforto. É pouco. Não adianta termos só catedrais futebolísticas pomposas. Assim como os grandes templos religiosos, são importantes para impressionar e atrair os fiéis. Mas a base está na paróquia, na igrejinha de bairro ou de interior. Elas são a maioria, nelas se concentram as turbas fervorosas. Por isso, merecem tanta atenção, assim como os campos dos pequenos clubes e das cidades médias. Triste é saber que, com as exceções de praxe, ?catedrais? e ?capelinhas? se esfarelam.FAÇAM SUAS APOSTASA Série A paulista tem a largada marcada para a quarta-feira à noite,os times estão em formação e mesmo assim é possível vislumbrar tendências. Para início de conversa, não boto fé nos pequenos. Infelizmente. Antes as equipes do interior costumavam dar trabalho aos grandes, além de serem generosas fornecedoras de talento. Não é mais assim. A maior parte desses clubes ressurge neste período, para em seguida voltar ao estado letárgico em que se afundaram.Mesmo os poderosos não nadam em dinheiro nem fizeram grandes contratações. Por ter mantido a base (e pela expectativa em torno de Adriano), o São Paulo larga como favorito. O Palmeiras tem feito mais barulho do que investimento, mas pode surpreender. O Corinthians contratou penca de jogadores, para redimir-se da queda para a Série B nacional. Incógnita. O bicampeão Santos aparentemente é mais fraco do que no ano passado. No entanto, deve chegar às semifinais. A Lusa voltou à elite e joga como franco-atiradora. Não é excepcional, mas o campeonato estadual vale como divertimento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.